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Myazaki Ekiho Zenji Sama
Zenji Sama era alto e sereno.
Viera de Hokkaido, do gelado norte japonês.
Entrou Parinirvana dia 5 de janeiro com 108 anos de idade.
A primeira vez que o encontrei foi em Mie-ken, num grande templo, onde estava sendo realizada a cerimônia de Jukai-e (transmissão de Preceitos para leigos e leigas).
Estávamos no último dia do encontro. A atmosfera na sala era de amorosidade e harmonia. Tudo fluía, não havia nada extra. Sincronicidade perfeita. A respiração coordenada com os tambores e sinos. Fluindo.
Fui caminhando em direção a Miyazaki Zenji Sama. Ele estava de pé, em cima do altar. Eu carregava meu zagu (tecido de fazer reverências) em minhas mãos, conforme o costume desta cerimônia de encerramento. Ao caminhar, lentamente, perguntei em voz alta:
“Ika na ruka kore? — O que é isto?”
Houve um instante de surpresa. Geralmente essa frase incluiria um complemento: “Ika na ruka kore honrai mu ichi motsu? O que é isto de desde o princípio nada existe?”
Mas a minha pergunta era mais aberta. Ela se referia exatamente àquele instante.
Zenji Sama não levantou o kyosaku (bastão de madeira).
Ele olhou em meus olhos. E meus olhos diziam, o que é isto? O que é tudo isto? O que é esta maravilhosa experiência iluminada de servir e participar tão próxima, tão íntima com todos os Budas Ancestrais?
Zenji Sama me compreendeu e disse:
“De Buda a Buda”
Esse episódio ficou famoso.
Vieram me perguntar se eu esquecera a pergunta que iria fazer... Não, não havia esquecido nada.
Anos mais tarde, encontrei-o em Sapporo, no templo Daishoji onde eu auxiliava nas cerimônias religiosas. Templo onde fui tratada da mesma maneira que eram tratados os monges japoneses, com o mesmo respeito e eqüidade.
Miyazaki Zenji estava mais idoso. Foi auxiliado a subir as escadas.
Reencontrei-o pela terceira e última vez há treze anos, na cerimônia fúnebre de meu mestre Yogo Roshi – Zengetsu Suigan Daiosho – realizada no mosteiro sede de Sojiji, em Yokohama.
Depois do almoço, no pequeno intervalo que separava uma cerimônia de outra, fui até seus aposentos e pedi para entregar-lhe uma pequena lembrança.
Miyazaki Zenji estava sentado em uma cadeira. Seu atendente colocou uma almofada no chão bem à sua frente, para que pudéssemos conversar. Zenji Sama puxou uma outra almofada e sentou-se ao meu lado, no chão. Falou longamente comigo. Seu atendente, preocupado com o possível cansaço do Mestre, fazia gestos para que eu saísse.
Como poderia eu sair da sala quando Zenji Sama me dizia:
“Cabe agora às monjas transmitir o Zen de Mestre Dogen. Os monges estão muito envolvidos em política. A maioria perdeu a essência do Caminho de Buda. Continue a praticar e a transmitir os ensinamentos verdadeiros.”
Nunca ouvi ninguém falar mal de Zenji Sama. A única crítica, talvez, fosse de sua firmeza. Mas não era rígido. Era correto. Era profundo, sério, corrreto. Nunca se casara.
Toda sua vida, desde a infância, dedicada aos ensinamentos de Mestre Dogen. Sempre fora o primeiro a chegar para o zazen matinal, mesmo quando caminhava batendo sua bengala de cem anos no chão. Mesmo em cadeira de rodas oficiando e cuidando do mosteiro sede de Eiheiji.
Agora, Zenji Sama atravessa.
O puro Dharmakaya (corpo do Darma) não aparece nem desaparece.
De Buda a Buda.
Despeço-me comovida.
Comprometendo-me a continuar transmitindo os ensinamentos de Mestre Dogen a todos os seres.
Recebendo suas bênçãos e agradecendo seu exemplo, espero corresponder à esperança e à força colocadas em mim.
Meus respeitosos agradecimentos por uma vida dedicada ao Darma de Buda.
A chuva passa
E os pássaros cantam
Ano Novo
Mãos em prece
Monja Coen
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