Monja Coen Roshi

R H Forum


(Texto escrito pela Monja Coen em fevereiro de 2003, São Paulo, para a Revista da Hora, Jornal Agora)

Durante seis dias mais de cem mil pessoas se amaram com respeito e ternura, demonstrando que outro mundo é possível.

Que outro mundo é esse? Teria sido um sonho o que vivi de 23 a 28 de janeiro? Seria fantasia a utopia que se tornou real no diálogo, no encontro de diversos ópticas, vivenciado na cidade, que se tornou sagrada e consagrada, de Porto Alegre?

Oramos juntos, estádio lotado, regurgitando pessoas calmas, amorosas, de diversos países, de diversas religiões, ateus e não ateus atentamente voltados a um palco montado para ouvir a confirmação deste renascer de esperança da Europa, da Ásia, da América do Norte, da África e da nossa América Latina. Certeza da mudança que está ocorrendo e que é de Paz.

Paz dentro e fora, por toda parte, no respeito pela natureza, nossa casa comum. Sugestões e soluções de mudanças nas fontes de energia, como por exemplo, de petróleo para hidrogênio, que teria como subproduto a água pura… Energia solar, energia de vento.

A energia mais forte da compaixão …Sentir o outro, suas dores, suas tristezas, alegrias, incertezas. Agir para transformar através da não violência…

Teve até arco íris, que era um círculo redondo e perfeito, multicolorido no céu de meio dia. Tínhamos feito uma Caminhada Zen pelo campus da PUC, saindo do prédio 11 até a Tenda Interreligiosa. Várias e diversas pessoas me seguiam, em fila indiana, alegre grupo silencioso caminhando atentos ao caminhar, percebendo o chão, o vento, a luz e a sombra, os sons, os cheiros, o corpo, os pés e o ar... Cada passo um passo de Paz. Inspirando tudo que existe no mundo e expirando paz, compreensão, ternura, tranqüilidade, afeição. Havia um balão enorme, de plástico, cheio de ar, representando o planeta Terra visto do Sul - o Uruguai lá em cima. Havia um redondinho transparente para expiar a Terra por dentro, vazia de intenção, transparente na emoção. Azul planeta, casa amada. Respiramos profundamente em círculo á sua volta e de mãos postas agradecemos à Mãe Natureza ali representada. Alguém pediu uma foto. Levantamos a Terra e ao olhar para o céu, o arco-íris circular. Azul de dentro e azul de fora. Minha aluna chorou emocionada. Ríamos juntos encorajados pelas luzes coloridas inalcançáveis. Apontávamos os céus ,uns para os outros, todos repentinamente conhecidos, amigos, irmãos e irmãs. Estariam nossos anseios de curar a Terra, de cuidar da vida tido repercussão espacial, espiritual, mental, corporal nas pequeninas atômicas gotas coloridas de emoção?

Os índios uma vez me disseram que os Cavaleiros do Arco-Íris viriam salvar a Terra dos saques, do desrespeito, da destruição sem sentido.

Que lucro é possível, se a vida for desrespeitada? Que ganho pode ter quem cobra juros de quem não tem nada de nada?

Redondo pajé de fala macia, cabelos e barbas brancas, Leonardo Boff lembrava que nos tempos de antanho sobrevivemos porque cooperávamos. A caça e toda comida eram por todos compartilhadas.

No centro da taba todos juntos se alimentavam. Hoje alguns não tem nada e outros esbanjam e gastam, fazendo regimes severos pois comem de outros as partes.

Antropofagia, devorando nosso corpo-mente, devorando a nós mesmos pois toda a vida da Terra é a nossa própria vida.

Acorda, desperta, eu sussuro. Percebe as conexões de cada uma de nossas opções.

Não à guerra, à injustiça, aos abusos à vida em todas as suas formas: femininas, masculinas, jovens, crianças, idosos, humanos e de outras sortes de seres, de criaturas, animais, insetos e tudo que há, de plantas, de ar, de minerais, de terra, de água, de sol, de vento.

Torne-se essa ternura, sábia e contundente que inclui todos no processo de crescimento das gentes.

Outro mundo é possível sim, onde os valores principais são o acolher e o compartilhar.

Presidente Lula, visto de longe parecia um ser tão pequeno, dez centímetros de altura, andando de lá para cá, sua voz chegando quente aos ouvidos das gentes, explicando que iria falar aos poderosos para ajudarem a terminar com a fome no planeta. Tão simples, tão puro, explicando porque ia a Davos. Os olhos do mundo se abrem surpresos à simplicidade de quem sofreu injustiça e pede com respeito,quase inocente, o que é de direito a todo vivente.

Há maneiras novas e antigas de unir e separar. Há soluções alternativas para resolver conflitos.

Solte a arma, o pau e a pedra. Respire profundamente e perceba a energia da Paz, deixe que ela entre, penetre até o fundo de suas artérias. Chegue ao coração da vida e propulsione uma nova circulação na Terra.