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Budismo, corpo e saúde

A Visão do Espaço Tai Ken Sobre a Palestra da Monja Coen - Budismo, Corpo e Saúde

Por Alexandre Luzzi

Realizamos nosso primeiro encontro com uma presença muito especial e querida para nós do Tai Ken, a Monja Coen. Somos um espaço laico, porém aberto a receber e acolher toda tradição religiosa, toda teoria filosófica e/ou científica que tenham como propósito pensar as questões humanas afins com o nosso trabalho.

Representante de uma tradição milenar, o Budismo Japonês, a Monja Coen trouxe uma contribuição muito importante para pensarmos juntos os rumos que as atitudes e o próprio conceito de saúde estão tomando na atualidade.

Como professores de Educação Física temos o compromisso Ético de colocar em debate todos os conceitos que norteiam nossa prática, pois entendemos que aceitar um determinado conceito ou idéia de saúde implica em escolher certos tipos de intervenção sobre o corpo e a vida dos sujeitos.

O senso comum tende a pensar no conceito de saúde assumindo algumas premissas que são: 1) Saúde é um conceito que se contrapõe ao estado de doença, ou seja, ter saúde é não estar doente. 2) O corpo físico é uma máquina que necessita funcionar de forma perfeita, ou dentro de certos padrões de "normalidade" quantificáveis. 3) Usualmente pensamos a saúde a partir de uma perspectiva individualista, é sempre o sujeito o responsável, nunca uma questão coletiva.

De uma forma bastante clara e simples, as palavras da Monja colocaram pontos de interrogação nessas premissas. Será que realmente precisamos pensar a saúde em oposição à doença?

Essa dúvida fundamenta-se em dois princípios do Budismo que são: a impermanência ou transitoriedade de tudo o que existe, e a existência do sofrimento como condição inerente à vida. Esta última, não implica em fazer uma apologia ao sofrimento, ou negar a possibilidade da felicidade e da alegria, mas talvez ampliar nossa consciência para a idéia de que a experiência do vivo inclui a experiência da doença.

Pensar a saúde para além desse dualismo saúde/doença significa pensar um conceito capaz de contemplar e de integrar nossa capacidade de administração, de forma ativa, do risco, das tensões, das angustias, do mal-estar. Vivenciar uma enfermidade não significa não ter saúde, essa é uma perspectiva reducionista e perigosa. Assumir essa premissa, talvez, significa abrir caminho para os rumos da medicalização excessiva, ao abuso nas práticas esportivas e até mesmo ao excesso em investigações e exames.

Uma postura ativa diante da vida e convergente com um conceito de saúde que estamos tentando propor significa ter a coragem da experimentação de diferentes modos de pensar, querer e sentir. Ela só existe quando nos oferecemos a esta aventura do viver, a exploração e a descoberta de diferentes pontos de vista.

Mudar de perspectiva, criar, estar aberto a outras formas de pensar, sentir e agir inclui estarmos atentos para a qualidade dos encontros que fazemos em nossas vidas. Assim, deslocamos o conceito de saúde para o território da intersubjetividade. Segundo a própria Monja, "nós intersomos".

Jamais estamos sozinhos, significa que nosso corpo é habitado pela impressão de todos os encontros que realizamos ao longo de nossas vidas. Nós, seres humanos, realizamos encontros de inúmeras formas: com outros seres, com a natureza, com objetos, com idéias, pensamentos, imagens, fantasias, emoções, sentimentos. Qual o impacto desses encontros na sua subjetividade? Qual o efeito desses encontros na vida de outras pessoas? No planeta? Eles afirmam ou negam nossa potência de existir e agir?

Saúde não é uma questão de forma corporal, de padrões de normalidade, de índices disso ou daquilo, saúde não é algo que se tem, saúde é algo que se conquista, sempre. Essa conquista é a própria afirmação de nossa potência de existir compondo forças com outros seres em busca de um mundo melhor para todos. Dentro desta perspectiva a Monja propôs um outro deslocamento: Será legítimo considerarmos o corpo um objeto ou uma máquina que deve ser treinado, manipulado e controlado ao sabor da moda?

Se sim, estará aberto o caminho para todos os excessos que caracterizam nossa cultura atual, a medicalização irresponsável, os procedimentos invasivos em busca da forma perfeita, a procura pelo rendimento em níveis máximos. No entanto, temos a opção de outros caminhos. Em suas palavras: "Nós não podemos ser o outro, Existe um estado de saúde que é adequado à minha estrutura, Nossa ancestralidade vive em nós, nós somos essa memória viva".

A proposta de uma outra saúde refere-se sim, à consciência de que nossa estrutura corporal possui caminhos que não dependem de nossa vontade e cabe a nós encontrarmos uma maneira de conviver de forma harmônica com nosso corpo, respeitando suas limitações, sem perder a oportunidade da descoberta de novas possibilidades. Talvez esse seja o caminho para uma vida de mais contemplamento, alegria e saúde.

Treinar corpo/mente também pode significar perceber as expressõe emocionais de nosso corpo, o fluxo de pensamentos em nossa mente e a forma como estamos nos comunicando com o outro. A medida Ética dos cuidados com o corpo e a saúde não estão na quantidade de exercícios que destinamos para esse fim, mas no sentido e no significado que essa prática assume.

É a partir desse deslocamento que o Espaço Tai Ken tem como objetivo fundamental proporcionar um ambiente para uma prática de exercícios ponderada, onde nossos alunos terão a oportunidade de vivenciarem o movimento a partir do registro de diferentes culturas, como o Pillates, as danças de origen Africana, a capoeira e o Yoga. E, além disso, um espaço aberto para o diálogo sobre todos os conceitos que norteiam essa prática, ampliando assim as possibilidades para escolhas mais consciente rumo a uma vida saudável.

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