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Retiro em Auschwitz-Birkenau

Por muitos anos, aspirei participar de um Retiro dos Zen Peacemakers em Auschwitz-Birkenau. Há poucos dias, esse sonho tornou-se realidade, com o apoio de vários amigos. Reunidas as causas e condições necessárias, dediquei-me a fazer minha parte, entregando-me por cinco dias a essa jornada voluntária naqueles locais tão dolorosamente significativos para a história humana.

Nossa experiência começou em Krakow, na Polônia, onde os participantes reuniram-se na tarde do domingo, dia 31 de outubro de 2010. Na manhã da segunda-feira, 1° de novembro, fomos de ônibus para Oswiecim, cidade próxima aos antigos e dolorosamente famosos campos de concentração. Éramos 84 participantes (68 adultos e 16 jovens), de várias nacionalidades, a caminho de algo que, por mais que nos preparássemos, sentíamos que iria nos surpreender, de algum modo. E assim foi também comigo... Após sairmos de Krakow, no trajeto de quase uma hora, a solicitação era de que mantivéssemos o nobre silêncio após 15 minutos da partida. Isso aconteceu de forma espontânea, à medida que a viagem progredia, pois o ambiente no ônibus transformou-se, e, das naturais interações de um grupo que há pouco se reunia, fomos nos recolhendo cada um em seu espaço pessoal, e ao silêncio coletivo. As circunstâncias ajudavam, pois a estrada passava por cemitérios cobertos de flores, algo tradicional na Polônia na data de 1° de novembro, quando se comemora o “Dia de Todos os Santos”...

A rotina do Retiro era algo diferente da que estou habituado em um Sesshin (Retiro de prática intensiva) tradicional do Zen. As atividades começavam às 6 da manhã, para os que queriam praticar Yoga. Depois, às 7 horas, o primeiro encontro de todos os participantes, mas em pequenos grupos, na metodologia de Council, onde todos têm oportunidade de falar do seu sentir, a partir de um referencial de autenticidade, respeito e conexão com a experiência do momento. Às 8:30H, desjejum, em silêncio. A partir das 9:30H, nos deslocávamos até o local do campo de concentração. O primeiro grupo, caminhando; o segundo grupo, de ônibus.
No primeiro dia, visitamos o campo de Auschwitz I, com seu tragicamente célebre portão de entrada, por conter a inscrição “Arbeit macht frei“ (algo como: “O trabalho liberta.”)

Conhecemos vários dos prédios - com suas dolorosas lembranças -, que atualmente constituem um Museu, e ao final dessa visita, realizou-se uma cerimônia inter-religiosa junto ao Muro das Execuções. Nessa ocasião, representantes do Budismo, Judaísmo e Islamismo oficiaram em memória das pessoas que foram ali mortas a tiros. Opcionalmente, ainda pudemos visitar a Câmara de Gás e Crematório de Auschwitz I, que foram utilizadas em caráter provisório, até a construção de Auschwitz II (Birkenau).

A partir do segundo dia, nossa rotina mudou um pouco, e foi repetida até o final do Retiro: iniciávamos o dia da mesma forma, mas nos deslocávamos agora para Auschwitz-Birkenau, também em dois grupos. Caminhando, eram 40 minutos. Ao chegar, nos reuníamos no assim denominado “Portão da Morte”, por onde outrora passavam os trens com milhares de civis, muitas dezenas em cada vagão, vindos de vários países da Europa, viajando em pé, sem água ou alimentos, em jornadas que em alguns casos duravam vários dias, sem paradas, nem mesmo para as necessidades fisiológicas...

Do portão, caminhávamos em silêncio até o antigo Barracão de Triagem, onde recebíamos colchonetes e almofadas de meditação (Zafus), e aqueles que necessitavam podiam utilizar bancos de madeira. Nosso “Zendo” era montado ao ar-livre, com qualquer clima, e ficava localizado na “Rampa”, o local onde outrora os prisioneiros desembarcavam dos vagões de transporte e passavam por uma triagem, sendo os considerados aptos para o trabalho forçado encaminhados aos barracões-alojamento, e os demais, julgados inaptos, dirigiam-se para o “Setor de Desinfecção”, o que significava a sumária execução da sentença de morte. Antes, porém, todos eram confiscados de quaisquer pertences, tinham o cabelo raspado, e os que não eram executados de imediato recebiam a tatuagem de um número, que substituía seus nomes a partir de então.

No centro de nosso local de Prática, algumas velas e uma caixa de madeira que iria conter as folhas com nomes de pessoas que morreram nos Campos de Concentração. Nós, sentados em um grande círculo, pela manhã fazíamos dois períodos de 30 minutos de Zazen. No primeiro, apenas sentar. No segundo Zazen, enquanto a maioria dos participantes permanecia em silêncio, os integrantes de um dos pequenos grupos de Council fazia a leitura de algumas dezenas de nomes de vítimas do Holocausto. Depois do zazen, participávamos de uma cerimônia em alguma das instalações originais do Campo; nos barracões ainda remanescentes do setor das mulheres e das crianças, nos prédios da “desinfecção” (onde os prisioneiros eram submetidos a um processo de desidentificação, ou poderíamos chamar também de desumanização), nas ruínas das enormes Câmaras de Gás e Crematórios – dinamitados um pouco antes da chegada das tropas Aliadas, e no monumento internacional que honra a memória das vítimas. Nessas cerimônias, ao final sempre recitava-se o Kadish (oração judaica), em vários idiomas.

Após essa última atividade da manhã, tínhamos o intervalo de almoço, quando recebíamos em nossa tigela a sopa do dia, e pão. Nossa refeição ocorria fora dos limites do Campo, pois, por respeito às vítimas, nunca devíamos levar água ou alimentos para dentro das cercas.

Desnecessário dizer que aquele alimento simples, que talvez em outro local e ocasião seria considerado pobre ou insuficiente, ali, naquele local de tantas memórias de sofrimentos e privações, tornava-se um banquete digno da profunda gratidão de todos.

Na parte da tarde, fazíamos outro período de Zazen acompanhado da leitura de mais nomes, e finalizávamos as práticas dentro das instalações do Campo com uma cerimônia memorial inter-religiosa. Nessa, cada tradição – budista, judaica, islâmica e católica – oficiava ao mesmo tempo em um diferente local significativo. Cada participante podia escolher em qual local e tradição desejava participar naquele dia, e esse momento era algo que me permitia confirmar que a forma apenas serve para manifestar a motivação sincera de nossos corações humanos, se assim o permitirmos. O fato é que o contato com aquelas memórias de dor e desumanidade requisitavam o consolo de alguma prática resignificativa, para além de qualquer elaboração racional que pudéssemos fazer.

No último dia, essa cerimônia inter-religiosa foi realizada de forma conjunta, com cada uma das quatro tradições realizando em sequência suas orações, em locais diferentes, numa dinâmica inspirada em uma concepção do Padre Manfred (Coordenador do Centro de Diálogo e Orações onde ficamos hospedados), que metaforiza as Estações da Paixão de Jesus. Esse foi um momento muito tocante, pois todos pudemos ouvir os líderes religiosos lembrarem da importância de olharmos para aquele passado doloroso como um alerta e uma fonte de instrução para nossos dias e para o futuro.

Todas as noites, também tínhamos alguma prática coletiva: visitamos a impressionante exposição dos desenhos de Marian Kolodziej (o prisioneiro 432, que sobreviveu a quatro anos e meio em Auschwitz, e registrou em seus trabalhos a terrível realidade daqueles dias); participamos de dois Councils de todo o grupo, um dos quais ocorreu na noite de quinta-feira, dentro de um dos barracões de prisioneiros em Birkenau, com a presença de um dos únicos sobreviventes de uma fuga do Campo. E, na última noite, houve a celebração do Shabat, com presença opcional, após o que nos foi oferecido um jantar de encerramento, e uma confraternização de todos os participantes, com a oferta dos talentos daqueles que sentiram-se inspirados a tal.

Assim foram aqueles dias, em seu aspecto visível. Porém, no que me diz respeito, o mais significativo ocorria o tempo todo no mundo silencioso dos sentires, nas manifestações de emoções ora contidas, ora transbordantes em lágrimas e isolamentos silenciosos de muitos de nós. Ainda que as condições físicas fossem muitas vezes adversas – num dia ficamos na chuva, e em pelo menos em dois dias o vento era tão forte e tão frio durante os períodos de zazen que precisamos colocar pedras dentro dos sapatos para que não fossem arrastados para longe – o frio maior, a escuridão mais assustadora estava dentro de mim. Em muitos momentos, foi impossível entender o que quer que fosse; felizmente que assim foi, penso eu, pois desse modo pude seguir com mais disciplina as orientações de Genro Sensei e Glassman Roshi, que nos indicaram que, nesse Retiro, os maiores ensinamentos seriam dados por Auschwitz.

Indizível gratidão, supremo consolo. Lá estava o Buddha, em sua sua persistência e generosidade na Prática; comigo estava o Dharma, com sua preciosa profundidade e incompreensível eficiência; em minha determinação, fraquezas, desesperos e alegrias, também me acompanhava a Sangha, com sua harmoniosa manifestação de todas as inevitáveis diversidades.
Se tiver de resumir os sentimentos desses dias fecundos, devo falar de tristeza e esperança.

Talvez nunca em minha existência tenha contatado com tamanha tristeza, com tão profundo pesar. A dor indizível de ver o registro daqueles tantos olhares – nas fotos, nos desenhos – que já não tinham expectativa de ver qualquer outro horizonte que não fosse a morte sem qualquer compaixão ou respeito; os muitos sapatos, óculos, brinquedos, malas, cabelos, de pessoas que pereceram sem nenhum consolo de uma presença amiga; o silêncio frio daqueles barracões, onde os dias devem ter passado lenta e pesadamente para aqueles que sobreviviam para trabalhar e para desejar ao menos uma morte honrada, morte esta que tardava em vir libertá-los da dor interminável de continuarem vivos. Acima de tudo, porém, convivi e me permiti acolher a tristeza imensurável de perceber que, de fato, ainda colocamos em prática muito pouco do que podemos e devemos aprender com aquelas páginas vergonhosas de nossa história comum. Para além dos papéis das vítimas ou perpetradores daquele horror, persiste nossa experiência de seres humanos que, em muitas ou no mais das vezes, continuam insensíveis às necessidades alheias. E, principalmente, continuamos a temer a diversidade, a culpabilizar o que não aceitamos, a punir o que escapa ao nosso entendimento ou interfere em nossos interesses limitados, egoístas. Persistimos em nos julgar de algum modo melhores ou especiais, e desse modo preparamos o terreno para o preconceito, esse brutal e cruel obstáculo à manifestação de uma cultura de paz. Assim, seguimos a conviver em uma cultura muito pobre em termos da realização autêntica de nossos sonhos existenciais mais profundos.

Pois bem; se tamanha tristeza me fez companhia naqueles imensos espaços gélidos, assim também andei por lá de mãos dadas com uma luminosa esperança. Aprendi com alguns eventos da história daqueles Campos que o ser humano pode efetivamente ir além das limitações do si mesmo, e tocar os limites da compaixão. Por exemplo, lá está o relato sobre o prisioneiro 16670 – o Padre católico polonês Maximilian Kolbe – que silenciosamente submeteu-se a morrer de fome para salvar a vida de outra pessoa condenada à mesma forma de execução. Lá, no decorrer do Retiro, pude testemunhar a sincera determinação de tantos participantes que, corajosamente, mantiveram-se firmes na Prática, apesar das dores e revoltas daqueles ligados de alguma forma às vítimas, e apesar das culpas e vergonhas herdadas por aqueles ligados de algum modo aos perpetradores. Para todos, restava a consoladora possibilidade do agora, esse terreno fértil e real, que pode gestar um novo porvir. A cada depoimento, a cada manifestação honesta que alguém fazia de seus sentimentos, todos nós nos sentíamos fortalecidos para expressar cotidianamente que algo temos aprendido com a história daqueles dias de horror. Na minha experiência, algo extremamente significativo foi ver, uma vez mais, como é bonito e inspirador participar da convivência pacífica e respeitosa entre as diferentes tradições espirituais. Foi emocionante ver, ao longo dos dias e de diversas formas, a forma como interagiram, em uma motivação fraterna e sábia em suas manifestações, o Rabino Ohad, o Imam Ihab, Padre Manfred, Glassman Roshi e Genro Sensei. Algo tão simples e tão raramente colocado em prática: se todos desejamos ser felizes, como podemos aspirar a ver isso manifesto se não respeitamos e valorizamos a diversidade de tantas visões sobre como ser feliz? É necessário e urgente que nos permitamos a experiência de conviver com exemplos desse tipo de comportamento edificante.
Finalmente, se algo o Retiro em Auschwitz-Birkenau já me ensinou, foi que devo em qualquer circunstância manter firme e serena a minha Prática; devo persistir no cultivo das sementes de paz em meu coração – pois se elas não germinarem ali, certamente não florescerão ou darão seus frutos no mundo; e, para meu próprio bem e o de todos os seres, devo respeitar e valorizar os ensinamentos do Dharma e os exemplos dos Professores e Professoras, seguindo com humildade os chamados que consigo captar. Naqueles dias, comprovei que, se um Sesshin em um Campo de Concentração pode parecer algo um tanto extremo e amedrontador, mais extremo e trágico é aceitar viver um dia de nossas vidas sem perceber a preciosidade nele contida, como se pudéssemos ter uma segunda chance de viver de novo esta vida.

Aspiro que possamos cultivar a sabedoria e a compaixão aqui e agora, e manifestá-las em todas as nossas relações. Que eu possa sinceramente dedicar todos os méritos de minha Prática ao benefício de todos os seres. Que todos os seres possam ser felizes, livres e pacíficos.

Jorge Koho - novembro/2010

-Algumas fotos no álbum do Picasa

 

Comentarios  

 
0 #1 2010-12-03 18:11
Muito obrigada pelo relato e pelas fotos, por participar e compartilhar. Gassho.
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