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Monge Yuho responde sobre Zazen

Entrevista para a revista Bons Fluidos pela repórter Thays Prado

O que é Zazen? Dentro do Zazen, qual é o conceito ou a definição de meditação?

Zazen significa Sentar Zen. Zen é uma palavra japonesa que vem do chinês Chan que, por sua vez, vem do sânscrito Dhyana (ou Jhana, em páli) e significa um estado de profunda concentração. Em nossa prática, não chamamos o Zazen de meditação, pois meditar é um verbo transitivo direto, que requer sujeito e objeto. Quem medita, medita sobre alguém, ou sobre algo. O Zen é intransitivo. Não há objeto. É uma prática onde se transcende sujeito e objeto, onde a dualidade desaparece. E então a vida se manifesta plenamente.

Qual é a origem da prática do zazen? E qual o seu propósito?

Nossa mestra Monja Coen Roshi, certa vez disse que o zazen é uma prática ancestral dos seres humanos, que nós o praticamos desde sempre... Na nossa tradição considera-se que, historicamente, a prática se origina com Sidarta Gautama que, há mais de 2500 anos, na Índia, sentou-se em Zazen sob uma figueira durante sete dias e sete noites e, no amanhecer do oitavo dia, sob a luz da estrela da manhã, tornou-se Buda, o ser iluminado, aquele que despertou. Da Índia foi levado à China pelo Mestre Bodidarma, vigésimo oitavo sucessor de Buda e, de lá, chegou ao Japão através de Mestre Dogen (pronuncia-se Doguen), fundador de nossa escola.

No zazen não buscamos propósitos, objetivo final ou algum estado superior, elevado. Zazen é uma prática simples, que nos oferece estarmos inteiros, despertos no instante em que estamos, no aqui agora. Apenas nos sentamos, sem julgamentos, completamente atentos ao momento presente. Inspirando e expirando, percebendo, sendo, intersendo com tudo que existe, com a vida do Universo.

Como funciona? Descreva, por favor, o passo a passo da técnica. O que se deve fazer em termos de postura, posição, mãos, respiração, atitude da mente etc?

Em primeiro lugar, é necessário um lugar adequado para praticar. Escolha um lugar tranquilo, onde haja luz e temperatura amena, nem muito claro, nem muito escuro, nem calor, nem frio. Há várias maneiras para se sentar: no zafu (almofada) em posição birmanesa, meia-lotus ou lótus completa; no banquinho ou em uma cadeira. Não há um lugar melhor ou pior. O importante é que a coluna vertebral esteja ereta. O queixo deve estar encaixado, nem levantado, nem rebaixado, de modo que a cervical fique reta. O corpo deve estar centrado, nem inclinado para frente, nem para trás, nem para a direita, nem para esquerda. Para perceber este centro, faça um balanço movendo o corpo da esquerda para a direita como um pêndulo, mantendo as mãos apoiadas nos joelhos com as palmas voltadas para cima. Inicie com um movimento amplo e vigoroso e depois vá diminuindo, até atingir seu ponto de equilíbrio. Perceba as orelhas alinhadas aos ombros e o nariz em linha com o umbigo.

Esvazie os pulmões completamente, soltando profundamente todo o ar pela boca por três vezes. Perceba os locais do corpo onde haja tensão e procure relaxá-los. Em seguida, apóie as mãos quatro dedos abaixo do umbigo, formando o mudra cósmico: mão direita embaixo, com a palma voltada para cima, as costas dos dedos das mão esquerda repousando sobre os dedos da mão direita, dedos sobre dedos, sem avançar sobre a palma das mãos. Encoste levemente os dois polegares, como se houvesse entre eles uma folha de seda. Nesta posição as mãos estarão formando uma perfeita elipse, como os planetas em torno do Sol. O Cosmos em nossas mãos, nós nas mãos do Cosmos.

A seguir, coloque a ponta da língua no palato superior, tocando levemente atrás dos dentes frontais superiores. Mantenha os olhos entreabertos (nem abertos, nem fechados), pousados a sua frente, a cerca de um metro e meio de distância, num ângulo de 45 graus com o chão.

Agora, sinta sua respiração, perceba como ela está no momento. Se está abdominal (o abdômen se expande ao inspirar e se contrai ao expirar) ou se está toráxica (o tórax se expande e se contrai). Perceba seu coração batendo, perceba o ritmo de seus batimentos cardíacos. Ouça todos os sons à volta, próximos e distantes. Sinta os cheiros. Perceba a temperatura do ar, entrando e saindo de suas narinas. Observe a luz e as sombras dentro de seu campo de visão.

Perceba seus pensamentos. Como eles se formam, como se vão. Observe se seu pensamento se dá em palavras, formas, sons, cores, imagens, músicas. Perceba atentamente o surgir e o desaparecer de qualquer emoção, recordação, imaginação.

Porém, não fique apenas percebendo, apenas observando. Retorne a todo momento sua atenção para a respiração, para a postura correta, tornando-se uno com o momento, com o incessante fluir da vida do universo. Esteja presente no aqui e agora e entregue-se ao zazen.

Assim, permanecemos calmamente, imóveis por alguns minutos. Os períodos de zazen diferem, de acordo com a experiência e prática de cada um. Podem ser de 40 minutos, 30 minutos e ou de 20 minutos, de acordo com a realidade de cada praticante. Para quem está iniciando, até mesmo períodos de cinco minutos são suficientes.

Embora o zazen possa ser praticado em casa, no trabalho e em qualquer lugar e situação, é importante para seu aprendizado e fortalecimento que a prática seja coletiva, em locais onde praticantes antigos apóiem e orientem aqueles que estão se iniciando.

Porque esses procedimentos são importantes para se entrar em estado meditativo?

Não há separação entre os procedimentos e o zazen. Os procedimentos auxiliam no zazen e o zazen propicia a correta execução dos procedimentos. Não há procedimentos sem o zazen, tampouco zazen sem os procedimentos.

O que fazer com a mente inquieta durante a prática? E com as dores físicas?

Apenas perceba sua mente e acolha completamente tudo que você estiver vivendo no momento presente. Seja a inquietude. Seja a dor física. Não julgue. Nem certo, tampouco errado. Thich Nhat Hanh (um mestre zen vietnamita) nos ensina que, quando temos um sentimento desagradável, procuramos afastá-lo. No entanto, mais eficaz é voltar à respiração consciente e apenas observar este sentimento, identificando-o em silêncio para nós mesmos, tornando-nos íntimos dele. Tudo é passageiro. A mente inquieta torna-se quieta. A dor física torna-se conforto.

Aqui é importante lembrar que quando falamos em mente inquieta e dor física, nos referimos a inquietações mentais e dores surgidas durante a prática em pessoas que gozam de boa saúde física e mental, ou seja, não tem qualquer problema físico ou mental anterior, nenhuma dificuldade que as impeçam de se colocar nas posturas recomendadas. Aqueles que possuam qualquer limitador que as impeçam de praticar de acordo com estes procedimentos, devem procurar orientação com praticantes experientes antes de iniciar.

Qual é o objetivo final da prática do Zazen? Onde um praticante pode chegar com a técnica?

Como já disse acima, não há um objetivo final, um lugar onde se chegar, algo a se ganhar. O Zen é uma pratica simples, não tem nada especial. Zazen apenas nos oferece a oportunidade única e maravilhosa de apreciarmos a nossa vida, assim como ela é. Aqui e agora, momento a momento, com tudo que existe. Intersendo. Aprendendo a estar presente no instante. Aprendendo a agir para transformar, e não a reagir.

Quais os benefícios físicos, emocionais, mentais e espirituais o Zazen pode proporcionar?

Zazen nos oferece a oportunidade de conhecer profundamente nosso corpo, nossa mente, emoções, sentimentos, memórias. De acolher e apreciar quem somos, de viver plenamente nossa vida como ela é, com plena atenção no momento presente. Isto significa a possibilidade maravilhosa de agir e transformar nossa vida a todo momento, experimentando paz, serenidade, felicidade e contentamento, aqui e agora.

Quais as maiores dificuldades encontradas pelos alunos? Qual é a dica para quem se depara com essas dificuldades?

A maior dificuldade é nossa própria mente, nosso ego, que, a cada perturbação com que nos deparamos, quer desistir, se levantar e abandonar tudo.

Apenas permaneça firme e tranquilo, sentado em zazen. Há uma história contada pela Monja Coen Roshi, que ilustra bem isto:

“Buda foi ao inferno. E os demônios ao Nirvana

Dizem que certa feita um Buda foi parar no inferno e que os diabos fizeram de tudo para tentá-lo. Queriam vê-lo infeliz e sofrendo. Não conseguindo foram perguntar a ele: "Como você consegue ficar bem no inferno?". Buda respondeu apenas: "Ah! Aqui é o inferno?" E esses diabinhos ficaram com ele. Mais tarde um chefe diabo veio ver o que estava acontecendo e encontrou todos os diabinhos silenciosamente sentados em meditação, junto ao Buda. Ele conseguira transformar o inferno na Terra Pura. Buda não tentou destruir os demônios, não tentou acabar com o inferno. Apenas manteve a mente quieta e tranquila. Nirvana é percebermos a transitoriedade de tudo que existe e sermos capazes de tranquilamente agirmos para transformar as coisas de maneira que o bem seja comum a todos os seres.”

Há alguma contra-indicação ou todo mundo pode praticar?

De modo geral, todos podem praticar, não há restrições ou contra-indicação ao Zazen. Porém, com já disse anteriormente, pessoas com dificuldades físicas ou mentais devem procurar orientação de praticantes experientes antes de se iniciar na prática.

 

Comentarios  

 
0 #3 Gabriel 2012-04-18 03:51
É uma prática simples, porém complexa, que não nos traz nada demais, porém, nos treina para aprender a vivenciar tudo e o todo de maneira que recompensa nenhum seja necessária.

As explicações enigmáticas dos velhos mestres não são piadas: é o sentimento que é inexplicável, mesmo.

Creio que seja uma experiência muito pessoal, mas para mim, está sendo o seguinte: ao aprender gradativamente a simplesmente sentar-me e concentrarme na única realidade que há - o agora, que não dura nem uma fração de segundo - me dei conta de que cada minuto que passo sonhando com a vida que quero ter é um minuto a menos vivendo-a, portanto, decidi parar de planejar, fantasiar e imaginar e passar a fazer. Não porque não quero perder tempo - isso sequer existe - mas, justamente, porque viver qualquer momento e situação que não seja o aqui e o agora é deixar de viver.

Tudo isso apenas porque resolvi começar com shikantaza - simplesmemte sentar-me

Gassho e paz!
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+1 #2 2011-10-19 22:51
Paz!
Iniciei minha prática de zazen pós o ultimo domingo, depois de ir a um templo budista. Estou praticando desde então,alias hoje foi o terceiro dia e estou encantada com o silenciar e na maneira como tenho observado os meus pensamenotos no dia a dia, e n apenas só durante a pratica. O fato de n julgar o q penso tem me feito aceitar-me da forma q penso e sinto o mundo...estou muito feliz!!!
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+2 #1 2010-06-01 20:52
gratidão por esse depoimento.
é tão simples, já sabemos e é sempre novo, inédito. portanto, é verdade.
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