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Relato de Experiência

Por Marcus Monteiro, Tenzo do Sesshin de 1º e 2 de maio de 2010.

No fim de semana de 1 e 2 de maio, participei do meu primeiro sesshin. Ainda estou "flutuando" nas lembranças do evento. Foi uma experiência tão intensa e ao mesmo tempo tão cercada de simplicidade que se tornou muito marcante em minha vida.

Nesses quase dez anos de profissão na área de gastronomia, eu pude viver experiências bem diversas. Lugares, pessoas, épocas, astrais, tudo bem variado, me trazendo um repertório vasto de memórias e até mesmo marcas bem físicas. Considero experiências suficientes para escrever um conto, ou até mesmo um livro e, sempre que posso, eu passo isso aos meus alunos para que tenham uma pequena dose da realidade da vida de cozinheiro.

Então veio o retiro... Começou com o convite do monge Dengaku para participar como tenzo, seguiu com a discussão sobre o cardápio, as compras, a viagem até o Vila Zen. O trabalho se desenrolou ao longo do sábado sem maiores novidades para mim. Era um serviço de cozinha, corriqueiro, mas respeitando as normas das refeições budistas e também os horários. Na síntese, num formato já bem assimilado por mim, quando trabalhava em restaurantes.

O que começou a me chamar a atenção foram os pequenos detalhes que envolveram o meu dia. O comentário de todos sobre cada preparo servido, o cerimonial que se seguia a cada refeição, o silêncio dominante, o astral e a leveza do lugar e das pessoas, o sino que os chamava, isso tudo e outras tantas coisinhas que fui ligando ponto por ponto, até tecer uma teia de reflexões sobre minha participação lá.

Somando também, algo que me tocou muito. Eu tenho feito o zazen com certa dificuldade ainda. Hora a postura, hora a mente que não para, coisas que ainda impossibilitam de me elevar a um estado espiritual e físico mais livre da Terra. Eu sei, sou ainda um iniciante. Mas enquanto estava na cozinha, concentrado no trabalho, cuidando de tempos, preparos, e outros detalhes, eu me "afundei" num estado que eu acredito ser algo próximo ao atingido no Zazen. Apesar de toda atividade física ali presente, minha mente estava livre de outros pensamentos senão os do meu trabalho como Tenzo. Era somente esse "ser Tenzo" que me ocupava e assim foi ao longo de todo dia, até a noite. Creio que esse é o estado de zen que tanto é falado pelos monges. O estado de relaxamento, que se permite estar mas sem deixar de estar alerta ao que nos cerca. Um bom exemplo era eu estar cozinhando todos os prepraros, totalmente compenetrado, mas atento aos sinos tocados no zendô.

Fechando o dia de sábado, na cerimônia de arrependimento, tive contato com emoções mais fortes ainda, para fechar um dia muito intenso em todos os sentidos. A força da mensagem que recitamos junto com a Sensei me tocou de um jeito muito profundo. Me emocionei bastante e senti que colhi todos os benefícios daquela cerimônia. Saí do zendô muito leve, com a sensação de encerrar muito bem um dia perfeito e único. Na caminhada de volta para a cozinha, o céu estrelado me trouxe mais emoções, quando lembrei que há muito tempo não apreciava uma noite tão linda e cheia de estrelas como aquela.

Ao contrário do que imaginava, a noite de sono foi bem agitada. Achei que pelo cansaço eu iria dormir feito uma pedra, mas não consegui ter um sono seguido. Talvez por conta de estar desacostumado do saco de dormir, talvez por conta de todas as emoções vividas num único dia. Não me liguei nos motivos, mas sei que o sono incompleto não me incomodou e que o cansaço físico não era nada perto de tudo que senti e presenciei.

O ápice de todo esse trabalho e de toda emoção sentida foi receber de todos os participantes e principalmente da Sensei, os elogios e agradecimentos pela comida preparada. Eu sei que não sou o responsável por tudo aquilo lá. Fizemos um trabalho em conjunto muito bem feito e que sem a ajuda dos monges e dos outros praticantes, eu não teria tido o mesmo sucesso. Mas foi muito gratificante receber elogios sinceros! E como um grande presente, as palmas que recebi durante a Roda de Dharma, foi algo que me levou nas nuvens.

Nesses anos de cozinha, já havia passado por situações parecidas, com pessoas reconhecendo e elogiando meu trabalho. Já trabalhei em lugares que serviram grandes banquetes para celebridades, políticos famosos, personalidades. Cozinhei produtos caros em processos refinados, com apresentações até rebuscadas. Mas nunca, nunca em toda minha vida de cozinheiro eu havia vivido tão verdadeiramente a essência dessa profissão. Foram preparos simples, mas que exigiram grandes cuidados em todos detalhes. Mas como falei antes, a essência, o espírito de ser cozinheiro, estar presente de coração e alma, como eu nunca havia sentido da forma que o sesshin me fez sentir. E ainda, alimentar um grupo numa cerimônia religiosa, valorizando e respeitando processos, alimentos e pessoas que se envolveram com o ato, recebendo a benção da Sensei e o convite para continuar o trabalho no futuro, tudo isso me fez sentir muito honrado e extremamente gratificado por poder viver verdadeiramente a profissão que tenho e que amo.

Na volta do Vila Zen acabei errando o caminho e me perdi por uns 5 km. Não me importei com o contratempo e acabei parando na estrada, num ponto com uma linda vista de um vale. O celular desligado, aquela natureza ao redor, o bem estar que o fim de semana me trouxe, coisas que não se tem todos os dias nessa nossa vida agitada de cidade grande, mas que seguramente vale como ouro e parece poder durar para sempre.

Que o Zen traga para mim cada vez mais experiências como essas. Foi realmente algo que marcou.

 

Comentarios  

 
0 #1 2010-05-11 22:01
muito bonita a experiência do marcus.
hoje em dia dou muito mais valor às experiências simples, sem grandes arroubos místicos ou lances paranormais, mas com valores conscientes assimilados e sentimentos interiores vividos com paz, calma e simplicidade.
que os méritos de cada sesshin se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o caminho iluminado.
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