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Hojoki, Visões de um Mundo em Convulsão

"No final do século XII, a capital do Japão, Kyoto, foi devastada por terremotos, tempestades e fogo. Retirando-se deste mundo hostil, o poeta e sacerdote budista Kamo-no-Chomei deixou a capital, indo viver nas montanhas e florestas de Toyama, onde veio a construir sua famosa "cabana de um metro quadrado".

Nestas alturas solitárias, ele escreveu o Hokoji, um livro extraordinário que descreve tudo o que Chomei viu das misérias humanas, e também de sua nova vida de tarefas simples, caminhadas e atos de bondade. O verso de Chomei revela em suas imagens e cadência a transitoriedade do universo e as oscilações do coração humano. No entanto, no final ele questiona sua própria sanidade e a integridade de seu propósito.

Teria ele se tornado apegado demais a seu desapego, a sua rústica cabana e a seu auto-imposto exílio? Diz ele: "Terá esta minha mente incessante servido apenas para me tornar louco? Para todas estas questões, não há resposta. Então agora, uso minha língua impura para oferecer algumas preces, e então me silencio".Mas seu relato é incrivelmente moderno e atual. Mais adiante, no Hojoki, Kamo-no-Chomei diz:

para entender
o mundo de hoje,
meça-o contra a grandeza
do mundo
de muito tempo atrás".


As calamidades desta vida humana efêmera são retratadas com genialidade no Hojoki.

Nossa era é como a espuma que se forma em uma poça d'água, diz Chomei. Tão real ou tão irreal quanto eras passadas — e tão sentida quanto as calamidades de séculos atrás, tão esquecida como os desastres de outras galáxias e planetas.

http://tinyurl.com/ybwkuow

Abaixo os trechos iniciais.

 


HOJOKI

visões de um mundo em convulsão

O rio que flui

nunca pára

e no entanto a água

nunca permanece

a mesma.

 

Espuma se forma

nas poças tranquilas

dispersando-se, reformando-se,

nunca durando muito.

 

Assim é com o ser humano

e todas suas moradas

neste planeta.

 

*************************************

 

Em nossa gloriosa capital

os telhados das casas

de nobres e comuns

desfilam todos alinhados, e parecem

estarem em duelo por proeminência.

 

Parecem ter durado

por geracões, mas olhe mais de perto —

aqueles que estão de pé há muito tempo

são realmente raros.

 

Um ano são derrubados

e no outro levantados novamente.

 

Grandes casas caem em ruínas,

para serem substituídas por casas piores.

 

Assim é também

com aqueles que nelas vivem.

 

O lugar em si

nunca muda

e tampouco as multidões

Ainda assim, de todas as muitas pessoas

que um dia conheci

apenas uma ou duas permanecem.

 

Elas nascem ao por-do-sol

e morrem enquanto surge a manhã

como aquela espuma

sobre as águas.

 

Pessoas morrem

e nascem —

De onde elas vêm

e para onde vão,

eu não sei.

 

E tampouco compreendo

as casas efêmeras que elas constroem.

 

Por quem se preocupam tanto?

O que pode ser tão agradável aos olhos?

 

Uma casa e seu dono

são como o orvalho que se acumula

nas flores da manhã.

 

Qual será o primeiro a desaparecer?

 

Algumas vezes o orvalho se vai

enquanto as flores permanecem.

 

Mas elas certamente secarão

sob o sol da manhã.

 

Algumas vezes as flores murcham

enquanto o orvalho nelas se agarra.

 

mas ele não sobreviverá

a este mesmo dia.

 

*************************************

 

Nos quarenta e poucos anos

desde que cheguei à idade

de entender o coração das coisas,

presenciei muitos acontecimentos horríveis.

 

Uma noite, muito tempo atrás,

— terá sido o vigésimo-oitavo dia

do quarto mês

do terceiro ano de Angen (1177) —

um ruidoso vento soprava.

 

Às oito da noite surgiu um fogo

no sudeste da cidade

e se espalhou para norte e para oeste.

 

O fogo finalmente atingiu

o portão sul do Palácio.

Este portão, assim como a Câmara do Estado,

a Universidade, e o Escritório do Interior,

todos queimaram até o chão em uma única noite.

 

Dizem que o fogo começou

em Higuchi-Tominokoji,

nos alojamentos de uma compania de dança.

 

Os ventos sopravam selvagemente —

para ali! para lá! —

e o fogo se espalhava

como um leque que se abre.

 

Casas longínquas

engolfadas por fumaça!

 

E mais perto, chamas famintas

lambiam o chão.

 

Um céu vermelho em toda parte!

Brasas brilhando,

acesas pelo fogo!

 

Chamas levadas

por implacáveis rajadas de vento

viajavam por bairros inteiros.

 

Quem, nisso tudo,

não se assustaria até a morte?

 

Alguns sufocados pela fumaça

caiam no chão.

Outros engolidos pelas chamas

morreram imediatamente.

 

Alguns poucos capazes

de se salvarem

perderam todos seus bens mundanos.

 

Muitos tesouros

reduzidos a cinzas!

 

Terrível

terrível perda!

 

O fogo destruiu

dezesseis casas nobres —

e quem sabe quantas mais? —

me disseram que um terço

de toda a capital.

 

Levas de homens e mulheres pereceram.

 

Incontáveis cavalos

incontável gado

também morreu.

 

Todos os afazeres de seres humanos são sem sentido

mas gastar toda sua fortuna

e se tormentar para construir uma casa

nesta cidade perigosa

é especialmente tolo.

 

*************************************

 

Então

no quarto mês

do quarto ano de Jisho

veio um grande vento,

que atingiu Nakamikado-Kyogoku

e soprou tão longe quanto Rokujo.

 

Destruiu três, quatro bairros da cidade.

 

Nenhuma casa, grande ou pequena,

uma vez tomada por este vento,

escapou intocada.

 

Algumas foram arrasadas até o chão

e outras deixadas

somente com colunas e vigas.

 

O vento arrancou portões

e os depositou a quarteirões de distância.

 

Derrubou cercas

e cada pedaço de terra

se juntou aos vizinhos.

 

Móveis e objetos das casas

eram jogados para o céu.

 

Palha e pedras

dançavam loucamente no vento,

como folhas de inverno.

 

Poeira subia como fumaça

de forma que nada podia ser visto.

 

O rugir do vento tão intenso

que nenhuma voz humana podia ser ouvida.

 

Os ventos do próprio inferno

devem ser assim altos!

 

Não apenas casas

foram destruídas.

 

Muitas pessoas também

se feriram e perderam partes do corpo

tentando salvar suas casas.

 

Então o vento se voltou para o sul

e causou mais sofrimento.

 

Ventos sopram com frequência —

mas alguma vez com tamanha força?

 

Foi tudo tão estranho e irreal

que pensei que só podia ser

um mau presságio.

 

(a continuar... este é só o começo das calamidades...)

 

Comentarios  

 
0 #2 2010-02-01 02:19
olá Monja Coen!Saudações! Vi sua entrevista e gostei senti muita PAZ,e resolvi visitar vossa página.Gostei do comentário do Arthur.Pois é:na desgraça as pessoas sentem a dor e poderia estar acontecendo com elas.Tenho programa de rádio/tvweb/a Senhora iria em meu programa.Segundas e quartas as 15h00 em www.tvmundi.com.br e todos os dias na rádio as 16h00 em www.radiovvbrasil.com.br - DISCUTINDO A HISTÓRIA E RESENHA DA HISTÓRIA.Sou formado em História Geral com pós/em Política Internacional/Globalização pela PUC-SP e FSP-SP.odair ahmed abu jamra.prazer muito grande.logo mais estaremos entrando em parabólica e aberta.aguardo a Senhora.tel.:2283-4247 - 9168-6222 - 9168-4508.
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+1 #1 2010-01-27 15:46
Passei a virada do ano em Cunha, a cidade mais atingida pelas chuvas fortes do fim de ano.

Na noite do dia 31 nadavamos no Rio Paraibuna, na manhã do dia 01 o mesmo rio tinha subido 8 metros, levando a estrada e nos deixando ilhados a quilometros da cidade.

Em dois dias, sem a ajuda de ninguém, a própria comunidade da roça arrumou todos os 18 km de estrada de terra e depois nos deu uma carona até o centro.

Interessante, por que será que na fartura as pessoas se afastam e na desgraça elas se unem?
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