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Texto de dezembro 2005

Dezembro é mês de final.

Corinthians campeão, São Paulo tricampeão mundial. Fim das aulas. Fim do ano.

Férias. Décimo terceiro salário (para os que ainda recebem décimo terceiro – aliás vocês sabiam que monja não tem décimo terceiro nem férias? Sabiam que monja não tem sindicato, não tem órgão que represente e garanta seus direitos de monja? Sabiam que monja tem deveres e muitos deveres? E que às vezes fica devendo tanto por ter tantos deveres que se retira em meditação e prece procurando o caminho sem caminho de aprender a suportar sua própria limitação e insignificância).

Dezembro é para Buda o mês da Iluminação.

Durante uma semana o jovem peregrino, que havia fugido de seu castelo, dos luxos e riquezas, das Daslu da Índia antiga, dos seguranças, das casas monitoradas (eram guardas palacianos ao invés de câmeras de TV), das amantes carentes de dengues e presentes, das esposas enciumadas, dos cupinxas bajuladores, dos artistas e atores (ao vivo e em cores), dos pais reais e poderosos, possessivos e determinantes, que não queriam saber qual a vocação do filho mas já haviam decidido que seria rei.

Pois o jovem Sidarta, que era casado com a mais bela, pai de um menino lindo e sadio foge de tudo isso. Foge do dinheiro e da fama. Foge do luxo e da riqueza. Foge da abundância. Foge das carruagens (Ferraris e BMWs, Toyatas e Mitsubishis, Hondas e Fords, Mercedes e Volks) – ele nunca havia visto um busão.

Foge das roupas de seda, das jóias, do ar condicionado (empregados com grandes abanadores), das unhas manicuradas, dos cabelos perfumados. Foge dos treinamentos de esportes, das corridas e vitórias. Foge de tudo e no meio da noite se embrenha na floresta.

Que medo teria passado o jovem príncipe sem a sua corte e seus empregados?

Sozinho caminha, cabelos cortados, roupas trocadas com um sem teto. Encontra um grupo de homens tão enlouquecidos como ele – ou menos talvez, pois teriam menos coisas materiais – que se vestem com poucos panos simples e se preocupam em meditar e encontrar a sabedoria maior.

Seis anos. Então um dia dali também se foi.

Encontrou outro grupo de ascetas magrinhos. Por dia comiam um só pinhão. Não dormiam, não se banhavam. Ficou esquelético e triste. Desistiu.

Banhou-se nas águas do rio Ganges, comeu arroz doce (que delícia! Com canela, cravo, leite – que não era condensado na época – e feito pela jovem e bela pastora Sujata...seria o lanchinho dela?) e sentou-se em Zazen. Meditação profunda. Pernas cruzadas e pensamentos cruzados. Era melhor ir embora, visitar o pai, ver o filho. Não! Ficava. Como se houvesse vozes o convidando a sair das austeridades, a voltar a ser rei, príncipe, marido. Mas ficou firme sentado. Ervas cresceram entre suas pernas e braços. Passarinhos fizeram um ninho em sua cabeça e aranhas teceram teias em suas sobrancelhas. Silencioso e mudo. Sentado.

Demônios vieram o tentar com o sexo. Mulheres lindas e sedutoras, dançando e se encostando. O jovem manteve-se imóvel e como fumaça elas desapareceram. O rei de todos os diabos ficou furioso. Foi pessoalmente dissuadi-lo. Que ele era falso, que era mesquinho, que não era verdadeira a sua devoção, que deixasse de fingir de santinho.

Buda colocou a ponta dos dedos no chão:

“A Terra é minha testemunha.” E assim sumiu o diabão.

A sétima noite terminava. Ao amanhecer a estrela da manhã fazia brilho no céu. Ele amanheceu com o dia, iluminou-se com a luz que é dele, é sua e é minha.

“Eu e todos os seres da grande Terra simultaneamente nos tornamos o Caminho.”

O primeiro rugido de leão de Buda, o Iluminado.

Percebera que somos todos um só corpo e uma só vida.

Era 8 de dezembro.

Que todos nós possamos perceber a rede do interser e agir com a amorosidade terna de quem sabe sermos todos iluminados irmãos e irmãs caminhando na Santa Terrinha.

Mãos em prece

Monja Coen

 
 
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