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Minha mãe morreu

Minha mãe morreu lenta e suavemente. Era uma tarde quente.

Sentada na poltrona de repouso respirava mais leve do que nunca.

Eram duas inspirações, duas expirações e uma pausa. Parecia um pequeno pássaro.

Pela manhã, ao acordar, eu havia me deitado ao lado dela na cama e segurado sua mão. Pequena mão de dedos retorcidos pela artrose, que agora ficava largada dentro da minha. Estava quente e a transpiração dela, nessa manhã, foi diferente. Algo mudara na química de seu corpo. Minha mãezinha. Nas últimas semanas eu vinha ao templo meio sem vontade de deixa-la. Quando chegava a hora do almoço entrava em casa feliz por poder tocá-la, sentir o calor de seu corpo de noventa e seis anos. Quase um século.

Como árvore antiga se enrugou, a pele ficou manchada. Já não falava, não sorria, não me via. Será que me escutava? Acho que sim. De alguma forma sabia de minha presença, que molhava seus lábios e sua língua com suavidade. Há dias não comia nem bebia mais nada. O pré-morte é assim, li nos textos de pessoas que trabalham com pacientes terminais e fui orientada pelos geriatras.

Um amigo, Dr. Adão Nonato, seguidor de Allan Kardec, ao saber de seu estado me deu congratulações: desligava-se minha mãe do plano material, vivia de luz e à luz se reintegraria.

Fiquei mais tranqüila. Sempre questionamos se nossa decisão foi a melhor. Quando menos idosa Mamãe pedira que não a deixasse morrer em um hospital. Queria morrer em casa, sem aparelhos ou sondas. Foi feita a sua vontade baseada em critérios médicos e familiares. Aos poucos foi se desligando da vida.

...........................................................................................................

Mestre Eihei Dôguen (Japão,1200-1253) escreveu:

A vida é um período em si mesma.

A morte é um período em si mesma.

...........................................................................................................

A vida de minha mãe terminou dia 20 de janeiro às 14 horas. Depois de a acariciar e dizer que todos os anjos e seres benfazejos a aguardavam, vovô Seu Dê, vovó Virgilina, suas irmãs Sarita, Cecília e Moacir. Um portal lindo se abria de luzes e ternura, lá estavam seus tios, suas primas, amigos e amigas, e todos os seres iluminados e benfazejos, abrindo as portas de par em par, para acolher Branca Dias Baptista, minha mãe.

Depois de semanas, ela abriu os olhos e sorriu levemente. Seria minha imaginação aquele leve sorrir? Realmente estavam todos lá, no jardim florido, a recebendo. Minha irmã mais velha e uma de suas filhas entraram no quarto. Saí comentando que Mamãe nos ensinara a viver e agora nos ensinava como morrer.

Saí do quarto.

Poucos minutos depois minha irmã veio me chamar. Ela não respirava mais. Havia expirado. Expirado para não mais inspirar. Se a si mesmo não mais inspirava, agora me inspira a escrever com saudades e ternura a gratidão infinita pela vida, pela educação, pelos cuidados.

A morte de minha mãe começou nesse momento, como o inverno depois do verão ardente. Seu corpo foi esfriando aos poucos. Saudades crescentes. Que perdoe as aflições e as preocupações que eu possa ter causado: nascimento, infância, doenças, mudanças, adolescência, estudos, namoros, profissões, trabalhos, empregos, desempregos, viagens, casamentos, separações, encontros, desencontros, discussões, reuniões, filha-neta, neta-filha, monja.

“Tantas vidas em uma só vida”, me dizia com ternura.

Sempre esteve ao meu lado. Sempre senti seu amor, suas preces, seu apoio. Sempre recebi suas bênçãos. Agora a sinto em mim.

Hoje com saudades, reabro cartas antigas, fotos, momentos tão breves que são uma vida. Passa tão rápida e tão bela que quase perco a beleza do instante único e precioso do agora.

E escrevo a vocês, que me lêem, talvez comovidos, para que cuidem bem de quem está a seu lado. Respeitem a vida, a diversidade da vida.

Porque nunca sabemos quem primeiro deixará de inspirar. Aqui e agora é o tempo e o lugar. Aprecie sua vida.

...........................................................................................................

Inspiro verdade sábia, compaixão ilimitada e ofereço os méritos de minha prática, de nossas vidas, para que atinja, minha mãe amada, o reino da luz.

Descanse em paz, merecida senhora, valente abridora dos caminhos, que livre viveu e livre morreu retornando à fonte de onde tudo começou, começa e começará. Incessante atividade vital.

No absoluto vazio todas as possibilidades. Fonte inesgotável de vida, jorrando sem parar. Só os puros acessam a pureza. Quem deseja acessar se purifica pelas bênçãos da procura recebendo a água imaculada sempre a jorrar.

Que todos o seres se beneficiem em todas as esferas da existência e da não existência com o período vida e o período morte de Branca, minha mãe.

Que todos possamos nos tornar o Verdadeiro Caminho Iluminado fazendo sempre o bem a todos os seres.

 

Mãos em prece

Monja Coen

 

Agradeço a todos que vieram orar e meditar comigo no velório e no enterro de minha mãe. Agradeço a todos que me mandaram mensagens, telegramas, e-mails e telefonemas de conforto e compartilhamento.

Conforme as tradições budistas estarei celebrando cerimônias memoriais de sete em sete dias, até completar 49 dias.

As cerimônias serão às quintas-feiras, às 07:30h na minha comunidade à Rua Arruda Alvim, 127 – Pacaembu (metrô Clíncas).

A cerimônia de 49 dias será quinta-feira, dia 09 de março ás 18h. Com ela finalizamos o período morte de minha mãe e um círculo completo de vida-morte.

 

Comentarios  

 
0 #17 Mauro de França 2012-01-26 02:56
No dia 09/09/2011, em uma Sexta-Feira, eu perdi a pessoa, que mais me amava neste Mundo. Uma pessoa Guerreira, que criou todos os seus Filhos, com muitas dificuldades, mas nunca desistiu da gente, e sempre enfrentou os problemas de frente. Sinto muita dor no meu coração, minha vida ficou sem sentido, mas eu me espelho Nela, pois eu sei, que Ela foi um Anjo mandado por Deus para cuidar de mim aqui na Terra, e que Deus precisou Dela novamente para ajudar em seu Exército de Anjos. Mãe te amo muito, pode ter certeza, que nem a sua morte vai me separar da Senhora.
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0 #16 Jose Roberto Reis 2011-12-06 01:04
ontem as 23.30 da noite eu perdi minha mae querida e uma dor que parece q vai me deixar louco hoje foi enterro as 16 horas ela estava linda como sempre de lenco na cabeca
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0 #15 2011-11-23 12:45
No ultimo dia 14, tbm perdi minha mãezinha...foi td tão de repente,nunca tinha perdido alguém tão próximo na família. Tem sido tão difícil os meus dias, é uma dor tão cruel a perda da mãe...mas tenho certeza q Deus vai nos consolar e nos dar forças pra prosseguir com a ausência dela. Ela está livre desse mundo e lá de cima vai tá olhando por nós.Em 38 anos de existência o dia 14/11/2011 foi o dia mais triste da minha vida.Sei q agora ela tá dormindo nos braços de Deus e é isso q nos conforta um pouquinho a cada dia.
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0 #14 2011-10-20 12:25
18/10/2011,hoje,2.37 da madrugada.perdir minha maizinha
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0 #13 2011-08-17 03:14
Esse texto é lindo. Espero que muitos que ainda tenham presentes suas maes, em carne e osso, aproveitem bem esse tempo tão precioso...
O que tenho a dizer a minha saudosa mãe é que Tenha meu amor e minha gratidão!
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0 #12 2011-08-14 19:23
Perdi Minha Mãe 31/08/2011. Quero me lembrar de você,como alguém que sempre usou sonhar e acreditar,nos sonhos de Deus.Quero me lembrar dos verões e das lições que ensinou-Se eu pudesse voltaria atrás e te beijaria muito mais.Mãe ouviria mais os teus conselhos,sinto tanta falta do teu cheiro de acariciar os teus cabelos.A prova que Deus te colheu minha esperança é que na eternidade eu vou te ver,na eternidade sem sentir saudades,vamos adorar á Deus junto com os meus amados.do jeito que sempre eu sempre quis.Porque lá no céu toda hora é hora de ser FELIZ.Te amo minha mãe guerreira.
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0 #11 2011-08-04 23:44
Perdi minha MÃEZINHA no dia 31 de dezembro,sinto mt falta dela ela era o que eu mais tinha de precioso na minha vida !
Mais hoje sei que ela está bem esta diante de Deus ...
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+1 #10 2011-05-24 13:56
Minha mãmãezinha morreu . velho como doi perder a mãe. meu pai agredia ela,e ela teve que se virar sozinha criando varias filhas.
mãezinha agora o que eu faço? sou tão novinha, eu quro vc , como eu me viro sem vc mãe? mãe..... mãe me ajuda? :sad: :sad: (to chorando, eu qro a minha mãe, tenho só 16 anos)
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0 #9 2011-05-07 19:01
Perdi ninha mãe em 31 de outubro 2010l ,ela acordou bem conversamos rimos duas horas depois ela se deitou no chão e faleceu,foi rompimento da veia aorta e o pior é q morávamos só nós duas.Como esta difícil a minha vida sem ela já até pensei em me suicidar ,mas não o faço porque se houver reencontro após a morte tenho medo q o suicídio impeça,vou esperar chegar minha hora.MÃE QUE SAUDADE.
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0 #8 2011-05-02 22:46
Era tarde de uma triste terça -feira ,fui visitar minha amada mãe em seu leito de dor; dizia eu a ela que eu gostaria de ficar a tarde inteira a seu lado ,porém era uma UTI ,trinta minutos e nada mais...,ao sair dali eu disse assim:-Mãe eu te amo minha amada,eu vou embora mais os anjos estarão contigo ,eles te vigiarão e te guardarão te amo mãe amada,ainda ao sair retornei ,deitei minha cabeça sobre o seu peito ,ela entubada não podia falar nada ,só lagrimas caiam sobre se rosto pálido;apertei-lhe a mão com carinho e ainda senti sua macies ...,ao amanhecer ,o telefone toca...minha mãe havia partido,havia sido recolhida por aqueles anjos que eu lhe anunciara...Que dor ,que tristeza,dia 20 04 2011 sim é recente e a dor meus Deus ,vcs sabem como é. mas a vida é assim mesmo,e de alguma forma ela precisa continuar mesmo com muita dor e tristeza...
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