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Meu grande amigo Musashi morreu e está na Terra Pura, Pura Terra que acolhe nossos corpos mortos e largados, quentes ou frios, duros e retesados. Terra de tantas vidas. Pura Terra querida recebe meu mais amado Musashi.
Cão fiel. Foi envelhecendo com dignidade. Nada de tapinhas na cabeça. Mas gostava de puxar os cabelos das pessoas em zazen. Quero sair, quero sair.
Passear pela praça do estádio do Pacaembu. Corpo perfeito, de campeão, só lhe faltava um testículo, que ficara incluso. Ah! Eu não o castrei. Sou contra a castração de pessoas e de animais. Teve muitos filhotes com Tora Hime, sua esposa fiel. Teve uma cria com Endora, dinamarquesa, enorme dogue alemã.Todos os filhotes iguais à mãezona. Musashi gostava de frango assado. Mordeu algumas vezes algumas pessoas – para mostrar seu estado de líder, de chefe, de respeito, dignidade de samurai japonês. Não se atravessem comigo que tiro minha espadas e os firo. Acato suas ordens e obedeço, mas não queiram me prender. Nada de portas fechadas. Coleira só no portão, sei que querem me prender em um quarto ás vezes e eu não deixo não. Portas que se abram, pois senão esfrego as unhas. Preciso estar presente em todos locais e ciente do que estão fazendo. Participo de palestras, meditações, orações, entrevistas, dokusan, passeios e refeições. Cão que ladra não morde. Musashi era um Akita Inu, cão que não ladra quase nunca. Uivou de dor, duas noites. Seria dor nas costas? Estava intoxicado. De onde teriam vindo essas toxinas? Do rato morto no quintal ou não? De algum alimento? Da falta de tratamento? Por que demoramos tanto a agir? A vida sempre por um fio. De meu amado Musashi fica a memória da maciez de seu pelo branco, do quentinho de dormirmos juntos – mesmo que apertada em um canto da cama eu era feliz assim. Saudades de meu companheiro e amigo. Gostava de andar de carro. Como ficava triste se eu saísse sem ele. Queria levá-lo para todos os lados, mas o tempo corria, atividades não permitiam e o deixava deitado no portão me esperando tristonho. Musashi. Musashi. Mu. Mu. Vi a injeção letal em seu corpo convulsionando. Havia coçado suas orelhas e me despedido com tristeza. Mas você não podia mais se levantar. Teriam deixado de dar a droga necessária. Teriam dado remédio para o estômago quando seu problema era nos rins? Teriam dado remédio para suas dores na coluna e não percebido a intoxicação? Quantos de nós erramos pela omissão. Deixar para depois, espera, “matte kudasai” – isso tudo nunca mais.
Será que a morte de Musashi me ensina a ser mais direta e assertiva, a dizer o que sinto e penso sem medo de ofender e assim poder fazer o que minha sensibilidade e experiência de mais de sessenta anos de idade me indica?
Omissão é cumplicidade. Fale, diz o cartaz contra a discriminação aos idosos...Falemos, pois.
Quando telefonei domingo à noite para a Clinica me disseram que você estava bem e de pé. Iriam dar de comer para ver como reagiaria. Segunda feira, pela manhã fui até lá, buscá-lo. Deveria estar sarado. Tremia, convulsionava. Por que seria? Que drogas deram ou não deram? Soro apenas? A urina escura. Musashi. Como dói. Ponho no telefone a veterinária minha amiga – ela pergunta se deram remédio para infeção urinária, intoxicação de alguma coisa não imaginária. A jovem veterinária da clínica fica nervosa e brava, diz que deu tudo que precisava. Teria? Espero que sim, para sua redenção. Colheu rapidamente novo exame de urina e de sangue... Teve de esperar eu chegar para verificar?
Depois de algumas horas torno a telefonar – teria melhorado? Teriam dado finalmente remédios para ajudar meu amado bichinho a se desintoxicar? Fígado, rins...
Rins pararam de funcionar. Lá não fazem hemodiálise, teria de o transportar para outra clínica. Valeria a pena tentar depois de tantas horas de intoxicação?
Meu pai havia me aconselhado, uns dez minutos antes, que seria melhor deixá-lo morrer. Para que sofrer? Chamam isso de eutanásia? Eutanásia quer dizer boa morte, tranqüila e feliz. Ele estava sofrendo. Incapacitado de se mover. Reconheceu minha voz, meu toque, gemeu. Então, depois de rezar, fazê-lo sentir a fragrância do incenso, os toques do sino conhecido, acompanhado por sua escudeira fiel a Monja Zentchu e pelo Monge Tenbum, japonês enviado especial para este momento sagrado. Musashi deixou de ser, de respirar, o coração parou de bater, as convulsões terminaram. Injeção amarela e injeção de ar. Bicho forte para danar. Eutanásia é morte tranqüila. Para a morte ser tranqüila a vida teria de estar em tranqüilidade na hora de morrer? Será que estou errada? Fazê-lo dormir, descansar...Não daria mais para curar.
Tempo, tempo, curto tempo veneno, toxinas em todo lugar. Velho Musashi, velho amigo. Dentes já doíam, dor nas costas, e outras coisas mais. A morte o tranqüilizou de todas as inconformidades. Iria mesmo morrer um dia – tento. Quero crer que fizemos o melhor que podíamos fazer, visto nossas insuficiências, falta de percepção das necessidades verdadeiros. Fica a lacuna, o espaço.
A morte me faz querer culpar alguém. A morte me faz sentir culpada, omissa, como se pudesse sempre prolongar a vida do meu grande amado.
Treze anos de grande intimidade. Passamos por brincadeira, ensinamentos, brigas, vacinas, alegrias, tristezas, doenças, curas, nascimentos, mortes. Tantas coisas se passaram nesses treze anos que só eu e ele sabemos. Agora só eu sei. Termina aqui este capítulo. Um dos mais doces de minha vida. O amor incondicional de Musahi – respeitável cão Akita.
Nos veremos por aí, quem sabe, em que forma, em que vida. Somos a vida da terra, pura terra, terra pura, nossa casa, nossa vida.
Descanse em paz, em Buda, no Darma e na Sanga – que sempre foram e sempre serão seu e meu local de abrigo, refúgio, morada, acolhida.
Você foi um bom cão, meu melhor amigo.
Gassho Coen
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Comentarios
Convivemos por mais de 10 anos, quando nasceu nosso primeiro filho, o Antony. A partir do nascimento dele, a Fuá ficou triste e tres meses depois nos deixou, morreu dentro do carro a caminho do veterinário, na sua terceira visita. O veterinário nada diagnosticou, ela nao tinha nada, sempre muito forte, nunca adoeceu, nunca mesmo.... ficamos arrasados, e eu....sem entender, como ela resolveu nos deixar, por ciumes de nosso filho? Eu que nunca deixei de dar atenção, carinho pra ela. Ela era a rainha do lar, os gatos sao nossos donos voces sabiam? Nós pensamos o contrario, mas eles (os gatos) tem a certeza que são nosso donos...e isso é a verdade.
Isso só mostra, como somos impotentes perante as forças da natureza, os designios, o destino...saudades da Fuá, da gatinha Fuá
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