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Meu pai está morrendo. Lenta, dolorosamente. Tudo que posso fazer é acariciar suas mãos, seus pés. Ajudo no banho, feito na cama do hospital. Durmo ao seu lado – quando durmo.
Fico acordada ouvindo-o respirar através de uma máscara presa em sua cabeça por tiras negras.
Parece um instrumento de tortura medieval. Médicos e enfermeiros me garantem que isso alivia sua dificuldade respiratória.
Procuro acompanhar o ritmo do aparelho. Fico tonta. Inspiração rápida, expiração longa. Não há pausa nenhuma entre inspiração-expiração-inspiração.
O pulmão está comprometido, pneumonia, líquidos. A fisioterapeuta vem fazer aspiração. Um pequeno tubo plástico entra pela narina e chega ao pulmão. Suga sangue, catarro. Desagradável. Meu pai, com 94 anos de idade, franze o nariz.
Lembro-me dos yoguis - limpeza interna. Água pura aquecida e sal. Entrando de uma narina e saindo de outra. A limpeza de engulir gaze. Tantas formas de prática antigas e eficientes.
Mas, para yoguis, para pessoas treinadas.
No hospital não perguntam se a pessoa está interessada nessas práticas yoguicas. Estão fazendo o melhor pelo paciente.
Ficam perguntas em minha ignorante mente Zen. Seria adequado operar um senhor de 94 anos de idade, sendo tratado de pneumonia?
Pois descobriram que havia um hematoma entre a caixa craniana e o cérebro de meu pai.
Resultado de queda antiga ou recente? Resultado de anticoagulantes usados em massa depois de uma cirurgia onde colocaram prótese em seu fêmur direito?
“Ele sangra muito” foi o comentário do neuro cirurgião.
Minha irmã mais nova não queria fazer a cirurgia. Que ele fosse morrendo aos poucos, naturalmente, que não fosse ferido, cutucado, maltratado. Que dessem um sedativo, caso piorasse.
Parecia tão bem. Queria a alta. Voltar para casa. A pneumonia estava controlada.
Mas vieram os veredictos dos especialistas: se não fizer a cirurgia estará sendo condenado a uma morte muito sofrida.
De tantas e tantas foi operado.
Estava eu liderando um treinamento zen intensivo. Sentava-me em zazen e imediatamente voltava ao quarto do hospital. Sim, em todos os períodos de zazen eu me via no quarto, com ele.
Queria o seu bem, não sua dor, seu sofrimento.
Houve pioras, houve melhoras.
Nós monges somos proibidos de matar. Não podemos usar nenhum meio para terminar com a vida, nem mesmo mantras, pensamentos.
Oro por meu pai. Oro para que tenha tranqüilidade em suas dificuldades.
Tudo que começa termina.
Não há encontro sem despedida.
O corpo é como uma carroça. Quando essa quebra e não pode ser usada, a devemos abandonar.
Meu pai não quer morrer.
Meu pai quer viver.
Iniciaram a sedação. Teve pneumotórax. Furo na pleura. Teria sido o aparelho de respiração forte usada incessante mente?
O que pensa meu pai? O que não pensa?
Vá para a luz infinita. Radiante luz, mais forte que a do sol.
Por do sol. A luz bate em meus olhos e é refletida aos olhos de meu pai.
Verde luz envolve parte de seu rosto. Olhei demais para o sol, mal vejo sua face, pai.
Minha irmã mais velha chora, acarinhando, abraçando, querendo colocá-lo em seu colo.
Ele olha. Olhos azuis que olham.
Ele quer as filhas felizes.
Bom pai. Não queria me despedir de você. Queria ficar mais um pouco, queria acreditar que você sobreviveria a anestesia geral apesar da pneumonia.
Tenho raiva do cirurgião e quero culpá-lo por não ver meu pai e ver apenas o hematoma.
Ele viu o cérebro e não viu os pulmões. A especialidade limitou sua capacidade de avaliação?
Ou não?
Choro orando o Sutra do Coração da Grande Sabedoria Completa.
Anoiteceu.
Prática incessante do caminho.
Gate gate para gate parasamgate Bodhi svaha
Indo indo, tendo ido, tendo chegado e ainda assim indo. Salve a Iluminação.
Pai, agradeço sua vida minha vida, ensinamentos, ternura, cuidados, alimentos, limites ilimitados.
Beijo suas mãos inchadas de tanto soro e saio do quarto querendo voltar.
Há volta meu pai?
Onde dorme agora? Onde sonha? O que sonha? Pensa? Não pensa?
Triste escrevo a tristeza.
A despedida de meu pai. Dói.
Respiro fundo, solto lentamente.
Lenta a mente.
Isso é Zen. Isto é Yoga. Isto é vidamorte. Nós.
Mãos em prece
Monja Coen |
Comentarios
Compareci a sua palestra no yoga sem fronteiras e gostaria de agradecê-la pelos ensinamentos.
Gostaria de lembrá-la um desses ensinamentos que carrego comigo desde o dia em que li suas palavras.
"Sinta a tristeza, reconheça, respire a tristeza e a deixe passar."
Mãos em prece!
Om Tat Sat
Lala
♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥ ♥♥♥
E por mas que perguntes; só o silencio grita e nada aponta apenas silencia e cala.
Asfixia e procura a eterna ausencia.
solidão da bolha de sabão
que voa por um quarto de hospital,
uma forma momento
momento de pressão, de rompimento,
que se suspende no ar, pelo ar
e tão logo... se estoura
Apesar de tão instante
num instante no infinito
essa bolha iluminou uma criança
pureza natureza que sem saber
tocou-a...era esse o momento!
É o toque da criança na bolha (forma)
e é o toque da bolha na criança
tudo é uma coisa só
Não há explosão, apenas transformação
Não há re-encontro, nunca houve encontro
A bolha apenas parece estar fora
Querida mestra, com saudade e com ternura em horas dificeis unidos...
Túlio Samadhi
Estávamos na semana de treinamento no Templo, quando Sensei dividiu (compartilhou) seu tempo conosco e com o seu pai, no hospital. Coração de filha, coração de mestra! Mestra e Filha...Filha e Mestra. Momentos sensíveis...E Sensei nos ensinando o Verdadeiro Darma. Coração agradecido de tão profundo aprendizado...mãos em prece...
Nada a dizer, o que dizer!
Vazio!! Nada,tudo.
Tudo a sentir: amor, saudades,compai xão!
A certeza da força de Kanon.
A incerteza do reencotro.
A certeza que estamos unidos, ligados, conectados, juntos,no tempo e no espaço.
Sempre!!!!
Na esperança de voltarmos a sermos crianças...ternas, limpas e puras.
Zeradas!!! Iluminadas!!!
A fim de que no momento derradeiro, Jizo nos atravesse a outra margem.
Libertação.
Paz, Alegria, Felicidade.
Gratidão a seu Pai, por existir neste tempo e espaço.
Por nos permitir a benção de tê-la como mestra.
Gasshô
É muito comovente este relato.
Atraves da monja existe a filha e humanamente e divino como voce coloca estas questões.
As paloavras são lindas e tem mensagens maravilhosas.
Obrigada.
Angea
Mãos em prece!
Com compaixão seguro suas mãos que seguram as mãos de seu querido pai e, com reconhecimento recebi os ensinamentos que nos transmitiu com tanta sabedoria no Treinamento Intensivo, apesar da dor que ora vive. Gassho
Ao ler seu texto, mergulhei na sua história e como que “cúmplice” de seus sentimentos, segurei a sua mão e chorei com você.
Mãos em prece
Gassho
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