Texto de Novembro de 2005

“Eu e todos os seres da Grande Terra simultaneamente nos tornamos o Caminho”

                                                                                          Xaquiamuni Buda

Se formos capazes de compreender que não há separação entre eu e todos os seres da Grande Terra, poderemos nos tornar o Caminho simultaneamente a Xaquiamuni Buda.

Sem separar, sem dividir, sem excluir nos tornamos íntegros, completos, unos.

Quando o coração se rompe, corrompe. Também depende de alguém que junto se rompa e corrompa. O que corrompe e o corrompido são um par. Um não existe sem o outro.

O mérito de quem dá é igual ao de quem recebe, entoamos monges agradecendo em prece aqueles que nos dão esmolas.

Vivemos de esmolas. Daquilo que nos é dado, doado. E só podemos doar se houver a quem dar.

Abrindo o portal.

Se há pobres e carentes eles são nossa oportunidade de compartilhamento.

Se somos pobres e carentes permitimos a alguém compartilhar.

Há quem faça para ganhar méritos. Será que vale assim?

Estamos sempre querendo ganhar alguma coisa e como é triste perder.

Perder o amor, perder o amparo, perder o sentido de viver, perder os sentidos, perder os amigos, perder a perda de não ter mais o que perder.

Perder a razão, perder o perdão.

No silêncio da madrugada o som da bala na boca estoura a rolha da garrafa de quem bebe champanhe com chiclete.

O que aconteceu em seu sonho, menina que não ouviu o tiro?

Por que hoje o medo a segue? Seria perseguição? Choro, prece, oração?

Amor de mãe me persegue. Sem saber ser mãe foi tudo. Entrava e saía de casa.

Voltava e se drogava. Mal amada, assassinada.

Mas não é isso, o que é então?

No silêncio da madrugada um tiro de quem sem tino foi frio como a bala.

Quente sangue coagula e desce pela medula. Gota parada no ar.

Fico pensando em meninos de 29 anos com pistolas de ouro comandando exércitos de traficantes. Tarefa difícil manter-se vivo. Rezo por você.

Por todos os meninos que se fazem homens e morrem cedo, cedo demais – talvez tarde, quem pode dizer?

Largando as armas de ouro, de prata, de cobre, de chumbo cheio seu corpo.

De que serve agora a corrente de ouro?

Bem-te-vi, bem-te-vi. Quem bem o viu? Pássaro-ave voou e levou tantos outros cantores que cheio de ardores esperavam pelo seu lugar.

O céu deve estar cheio de anjos querendo conhecer os jovens que davam cestas básicas – de comidas e de drogas. Vida invertida.

Silêncio na noite.

Caminha seus passos. É Pero Vaz?

Caminha e escreve a história da vida com a própria vida.

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