Interser

Certo dia fui ao grande Mosteiro da Paz Eterna, em Fukui, no Japão.

O mosteiro tem cerca de setenta edificações – grandes e pequenas. É um dos mosteiros sede da tradição Soto Zen Budista e pode abrigar mais de quinhentos monjes.

Eu fora para uma visita formal e me colocaram num grande aposento.

Lembrei-me da primeira vez em que subira essa montanha, há muitos anos, cheia de expectativas, sonhos e alegria, para participar de um retiro especial. Eu fazia parte de um grupo de monjas do mosteiro feminino, onde morava há mais de dois anos. Haviam nos colocado nesse mesmo aposento. Éramos seis monjas. Deveríamos pacientemente esperar para que nos conduzissem ao refeitório, às salas de estudos, de meditação, de preces. Num mosteiro sede tudo é muito certinho. Ainda mais sendo um mosteiro masculino, no qual nós monjas só éramos admitidas em raras ocasiões. Minhas companheiras, todas japonesas, se sentaram alegremente a bebericar chá e conversar. Algumas costuravam uns paninhos. Não acreditei. Há anos sonhava em chegar a este mosteiro. Há anos queria conhecer de perto o templo do Mestre que tanto me inspirara a me tornar monja zen budista. Elas não pareciam interessadas em sair dali. Não aguentei. Sem dizer nada, como quem vai ao banheiro, saí sozinha e comecei a percorrer os longos corredores, as imensas escadarias de madeira. Jovens monges ensaiavam cerimônias, correndo, andando, entoando sutras em voz alta. Outros faziam faxina. A cozinha era enorme e eles estavam de avental branco e toalhas brancas na cabeça. Nenhum leigo ou leiga. Apenas monges.

Quando chequei ao salão memorial do Fundador, meu coração bateu mais forte. Queria entrar, fazer reverências, oferecer incenso. Nisso fui interpelada por uma jovem, com microfone na mão. Era de uma rádio local e queria saber minhas impressões do mosteiro. Surpreendeu-me. A modernidade e o eterno. Respondi algumas de suas perguntas até que ela me perguntou qual era a essência do Budismo. Nesse momento um sino badalou e ecoou por todo o mosteiro. Sem pensar duas vezes disse:
- “O som do sino”.

Zen não é nada especial. Budismo é estar desperto e completo no instante em que estamos. Gong!

Passando por essas memórias entrei no aposento, conduzida por um noviço, de cerca de vinte anos, todo vestido de preto, com oculos de armação preta e lentes grossas, que me pedira para aguardar até que viessem me chamar para os cumprimentos formais.

Assim o fiz. Anos haviam se passado e entre outras coisas eu também aprendera a esperar. Havia uma garrafa térmica com água quente, algumas xícaras, um bule e chá verde numa latinha. Bolachas, embrulhadas uma a uma, em papel de arroz com delicado emblema do mosteiro, também estavam na bandeja de madeira.

Era o entardecer. Tudo estava silencioso a não ser por alguns pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso de sandalo que trouxera, fiz um pouco de chá e enquanto o bebia lentamente puz-me a olhar para a palha de arroz que forrava o chão de todo o aposento.

De repente percebi o chão vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava as longas hastes douradas. Foi tudo muito rápido, mas muito vívido. Pouco depois o chão voltou a ser a palha de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso, mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles tatami suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande reverência pelos campos de arroz.

A interdependência, ensinada nos textos sagrados, está em toda parte. O arroz só é possível se houver água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à sua volta, senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo, varais de roupas coloridas, minhocas, e até nossos pensamentos e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz é feito de coisas não arroz. Cada um de nós existe graças a todos os não-nós.
Palha de arroz. Tatami. Vislumbre breve do milagre de interser.