Texto da Monja Coen:

NIKKEY SHIMBUM

UM FIM DE ANO BUDISTA

Tinha quinze anos e vivia em conflito. A mãe japonesa e o pai, que de terceira geração, já nem se lembrava das tradições antigas. Ela era magra, pequenina e na escola a chamavam de japinha. No começo isso a tinha incomodado. Agora já nem tanto. Só às vezes é que ficava quieta, pensativa e triste. Sentia-se diferente da turma. Falavam muito alto, gritavam, as meninas dançavam fumando nas ruas. Ela até tinha tentado fumar e se engasgara. Fora horrível. Nunca mais. O pessoal ria A japinha não é de nada mesmo. É, não sou de nada, pensava amuada. Em casa a mãe preparava os quitutes para o Ano Novo quando ela chegou esbaforida:

- Okaasan, okaasan.

- Oi oi oi. Ima isogashii daiyo. Nani?

- O que é o Ano Novo, okaasan? Alguma coisa muda? Nunca vi nada mudar? Será que vou crescer mais um pouco e poder comprar roupas nas lojas que minhas amigas compram? Será que vai ser diferente?

E ela começou a soluçar.

Okaasan arregalou os olhos miúdos. Tinha estado tão atarefada nos últimos dias. Faxina na casa e na oficina do marido. E lá era tudo tão difícil. Brasileiro não entende ano novo. Precisa ficar tudo limpinho, tirar teias de aranha, limpar aqueles cantinhos todos. Ela corria de lá para cá, com vassoura na mão, esfregão, esponja. Ainda tinha de fazer os arranjos de flores. Bambu, pinheiro e alguma coisa verde vermelhinha... Estava assim atarefada e de tanta tarefa sem pensar em mais nada, quando chegou sua filha toda perturbada. Desligou o fogão. Enxugando as mãos no avental se aproximou.

- Oi oi oi. Nani ima da na? Vou contar estória de fim de ano lá no Japon. Ta bom?

A menina concordou enxugando os olhos e se virando para limpar o nariz no lenço de papel que a mãe lhe entregava.

" Eu era pequena. Nevava. Meu pai tinha cortado toda lenha para três dias e agora sentado na sala ainda com toalha na cabeça tomava chá quentinho. Minha mãe carregava meu irmão nas costas e colocava lenha na fornalha preparando o banho pro pai. Eu tinha uns cubos, assim, quadrados né? Pois é. E eu brincava com eles. A neve caia quietinha quietinha. E meu pai me chamou para perto dele. Ele tinha cheiro engraçado. Saque, madeira, fogo, chá e peixe. A mão dele era áspera que nem uma lixa. Grande forte. Tinha sempre unha preta de poeira.

- Ano novo, tudo novo. Nós vamos longe, longe. Lá pro Brasil.

Ele falava comigo, mas olhava para a minha mãe. Ela fingia que não ouvia. Continuava mexendo na lenha, atiçando o fogo.

Ele então falou de novo, mais alto:

- Ano Novo tudo novo. Eu você, sua mãe seu irmão vamos fazer uma viagem muito muito longa. E vamos chegar numa terra toda verde, que não neva e tem muita comida e muito trabalho e a gente vai ser feliz. Muito feliz.

Ele passava o lenço pelo rosto e eu não sabia se enxugava a testa, o, nariz ou os olhos. Ele dizia:

- Não tem neve lá.

A neve caia quietinha e ele chorava, Meu pai chorava. Minha mãe lavava as batatas. Todos os dias comia batata e batatas. Era fim da guerra. Tanta gente morta. Cheiro de queimado, de carne queimada.. Ah, Filha mais velha, nem vou te contar. Venha cá. Enxugue os olhos. Hoje nós temos peixe, arroz, verduras, tofu, tsukemono. Shoyo, açúcar, sake e água limpa. Vai ser ano novo lindo.

Ano novo tudo novo... Foi assim

Dia 2 de janeiro fechamos as trouxas de roupas, panelas e altar e tudo mudou. Caminhamos e caminhamos na neve. Parecia que não ia ter fim. Eu queria colo. O pé doía. Não era do frio não. Era de andar. Só de vez em vez o pai parava. Depois logo continuava. A mãe não dizia nada. Eu chorava baixinho. A lágrima esquentava o rosto gelado e vermelho. Depois ela esfriava e fica mais frio e parecia que queimava a pele. Até que chegamos em algum lugar cheio de gente como a gente e depois de muitas filas, bebemos uma sopa rala e morna embarcamos num navio enorme. Estava quente no navio. Cheio de gente e de crianças e eu esqueci da fome e do cansaço e corri e brinquei até cair dormindo no colo da mãe.

Ano novo tudo novo. Foi.

Ma, já falei tantas vezes para você dessa viagem, do Brasil quente com baratas enormes voando e a gente se assustando. Dos cafezais tão grandes. Do sair com as estrelas e voltar com a lua pra casa. Nunca mais vi neve. Nunca mais senti aquele frio que cortava. Nunca mais meu pai chorou, mas também nunca mais riu. Ele morreu de mordida de cascavel. A mãe trabalhou na casa do patrão da fazenda, até apanhar apanhou da patroa brava. Agüentou tudo pra gente ir para a escola.

Todos os anos quando chegava a época do Shogatsu ela abria um furoshiki desbotado, tirava uns escritos que a gente não sabia ler, arrumava uns tabletinhos pretos escritos em dourado em cima de uma mesa coberta de lençol branco. Descobria uma imagem pequenina de Buda. Noutro canto abria um altar todo de madeira branquinha. Tinha um espelho dentro, pequenininho, redondo. Colocava galhos verdes, dobrava papel branco e prendia numa corda. Depois limpava a casa tão limpa que a gente tinha medo até de entrar. Ela ria e dizia Ano novo, tudo novo. Igualzinho nosso pai. Fazia amazake e a gente festejava. Éramos só nós três. Éramos o mundo. Parecia que o pai, Otoosan, estava com a gente. Parecia que a gente era feliz. Parecia tanto que a gente foi ficando feliz. Porque a mãe era forte. Ela era linda e forte. Ela trabalhava e mandava a gente para a escola. Ela aprendia a falar com os filhos - os dela e os da patroa, que caçoavam da ama japa. Ela amava também aquelas crianças e não se importava que a chamavam de japa. Ela era japonesa. Ela achava bonito seu país. Ela era contende de ser como era. Baixinha, pequena, magrinha, de olhos miúdos, de dentes grandões. Ano novo tudo novo."

E a mãe tirou do bolso um retrato pequeno e amarelado. Por que estaria ela com o retrato da obaasan, da vó, ali na cozinha? A menina não perguntou. De repente ela percebeu que a avó aquela japa, da foto amarelada, também estava lá. E o avô e todos os parentes e amigos. Todos juntos festejavam o ano que chegava. A fumaça das panelas, a fumaça do incenso no altar. A mãe colocando o pinheiro no vaso e sorrindo.

- Vamos logo para otera. No templo temos de tocar o sino do Ano Novo, espantar obstáculos. Monge diz que são 108 obstáculos pra gente ser feliz de verdade. Precisa espantar tudo que é ruim e chamar o bom. Vamos, filha, vamos rezar, pedir benção, comer udon. Então a gente volta. Vai vai vestir roupa limpinha, vai... Ano novo tudo novo.

- Cadê o pai?

- Ah. Ele já vem. Foi socorrer um carro na estrada. Ele deu folga para os outros. Ta no guincho. Bom jeito de começar Ano Novo, guinchando alguém. Ajudando. Seu pai é homem bom, menina. Ele vem se encontrar com a gente no otera..

Ela falava olhando no espelho e de canto de olho viu que a filha já não mais chorava.