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Saiba quem é a Monja Coen

da Folha de S.Paulo - 28/06/2001 - por Bell Kranz

Monja CoenNome: Monja Coen
Profissão: religiosa
Nascida em 1947
O que faz: missionária da tradição japonesa Soto Zen, leva a prática da meditação aos frequentadores dos parques da cidade de São Paulo
Filosofia de vida: zen, "estar muito ligado no momento, na sua vida, é pé no chão, não é voando lá nas nuvens. Se no presente eu fizer o melhor que posso, vou ter melhores resultados no futuro"

Monja ensina meditação nos parques

"São loucos?" "Fanáticos religiosos?", perguntavam baixinho as pessoas. "Não, ela é monja budista", explicou acertadamente o senhor idoso à sua esposa, entre as centenas de pessoas que olhavam embasbacadas a fila indiana que seguia uma monja no parque.

A cena aconteceu no último 17 no parque da Aclimação. E a monja em questão é Coen Murayama, brasileira de 53 anos, que viveu 12 no Japão, em clausura e internato, e é missionária da tradição Soto Zen.

Todos os domingos, sempre às 10h, ela pratica meditação com os frequentadores de um parque da cidade no evento batizado de Caminhadas Zen. Entenda do que se trata na entrevista abaixo.

Caminhada ZenFolha - Como surgiu a idéia da Caminhada Zen?
Monja Coen - Eu comecei a pensar no que o zen budismo podia oferecer ao país, às pessoas. Não adianta termos só um templo fechado, em que o acesso é limitado a poucos. E a cidade está estressada, há muita violência. Acho que uma das maneiras de a gente batalhar pela não-violência é fazendo o voto de não-violência. E ele só é possível quando entramos em contato com a essência do nosso ser. Isso é meditação. Só que as pessoas acham muito incômodo ficar sentado durante a meditação.

Folha - Em posição de flor de lótus?
Monja Coen - É, ou meia lotus. Existe um monge vietnamita em Paris, que fala de meditar caminhando. Inspirada no trabalho dele, pensei na caminhada em meditação nos parques.

Folha - E como ela é feita?
Monja Coen - A gente anda em fila indiana. A idéia é que, a cada passo, a gente sinta a própria respiração, o ar à nossa volta, os sons, os odores. Nós até abraçamos árvores para sentir a força estável.

Folha - Por que abraçar as árvores?
Monja Coen - Pelo seu tamanho, sua idade. As árvores têm uma estabilidade, uma força muito grande.

Folha - Para muitas pessoas, zen ainda carrega a conotação de estar "na lua", em estado de alienação, mas é exatamente o oposto, não?
Monja Coen - Exatamente. Zen é estar muito ligado no momento, na sua vida, é pé no chão, não é voando lá nas nuvens. Tem que estar inteiro no que está acontecendo, pois esse momento traz em si todo o passado e o futuro. Se no presente eu fizer o melhor que posso, vou ter melhores resultados no futuro. Mas, com a ansiedade e o estresse, só pensamos lá atrás ou lá adiante.

Folha - Como está sendo a receptividade das caminhadas?
Monja Coen - Na primeira vez, vieram 12 pessoas. Na segunda vez, 20. Na terceira, que foi no parque da Água Branca, vieram 50. Perguntei o que as pessoas acharam, e elas responderam que há tempos não lembravam o que é andar, respirar. Ficaram gratas, emocionadas. Uma senhora, no parque da Água Branca, disse assim: "Há anos eu venho aqui e andei hoje por lugares que nunca havia andado antes. Nunca vi as coisas como hoje". Porque dá outra percepção, a gente fica muito alerta à luz, à sombra, ao calor, ao frio, à textura do solo. Andamos vagarosamente, sentindo o chão.

Monja CoenFolha - A senhora acha que, depois do primeiro contato, as pessoas vão dar continuidade à prática da meditação?
Monja Coen - Nas nossas maiores dificuldades, se pudermos dar uma paradinha, uma andada lenta, uma respirada, podemos encontrar soluções pacíficas, mais justas, inclusivas. Reagindo na emoção, ficamos muito embrulhados.

Folha - É preciso ser budista para meditar?
Monja Coen - Não, não tem nada com o budismo. Todas as religiões têm meditação. O pessoal dos beneditinos faz a meditação por canto, os judeus têm a sua parte meditativa, os islâmicos também.

Folha - A idéia da meditação é a mesma em todas as religiões?
Monja Coen - Sempre. Que a gente possa atingir o ser essencial, que é todo aquele espaço onde nem as palavras vão -nem os conceitos.

Folha - Como isso funciona no dia-a-dia?
Monja Coen - São coisas simples. Um outro monge falava assim: "Quando o telefone tocar na sua casa, não atenda correndo. Ao primeiro toque, pare, respire e aí você vai atender". Só isso já faz uma mudança na sua vida incrível. Toca a campainha da porta, e as pessoas já ficam ansiosas. O som é para você parar e respirar, aí vai ver quem é. Porque aí você já se centralizou.

Folha - Não vai agir de forma impulsiva?
Monja Coen - Vai ser capaz de agir, e não de reagir. A idéia é que a gente possa centralizar. Muita violência é causada pela falta dessa centralização.

Folha - Quando a caminhada em fila indiana passa nas áreas mais movimentadas do parque, o público fica paralisado. As pessoas parecem outdoors ambulantes da meditação. Isso não atrapalha a concentração dos iniciantes?
CaminhadaMonja Coen - Eu também não gosto. Mas a idéia é levar isso para a nossa vida. Dentro do mato, por exemplo, tudo é muito agradável. Mas os outros seres humanos incomodam, estão olhando, acham bonito, feio. E é isso que a gente tem que desenvolver, a centralização. Faço aquilo que é certo, independentemente do que os outros acham. Quanto aos outdoors, estamos dizendo para os outros: vocês também podem fazer isso. Caminhar em silêncio é bom, não é preciso ficar falando o tempo todo.

 
 
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