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Ela viaja por todo o Brasil difundindo a sabedoria budista e divulgando o princípio da não-violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos. Confira tópicos da entrevista com a monja.
Quem é. Meu nome é Coen, composto de dois caracteres chineses. "Co" significa só ou um só, única; e "en" significa círculo perfeito ou compleição, perfeição.
Ser zen. Não é ficar numa boa o tempo todo, de papo para o ar, achando tudo lindo sem fazer nada. Ser zen é ser ativo. É estar forte e decidido. É caminhar com leveza, com certeza. É auxiliar a quem precisa, no que precisa e não no que se idealiza.
Ser monja. É ser. É servir. É meditar. É orar. É aprender. É ensinar.
Buda. Xaquyamuni viveu cerca de 600 anos antes de Cristo e torna-se Buda através da meditação. Buda sentou-se em zen por uma semana. As ervas cresceram entre seus braços e pernas, um pássaro fez o ninho na sua cabeça e teias de aranha cobriram seu corpo. Imóvel e irremovível assim permaneceu. Na manhã do oitavo dia, depois de sete dias e sete noites de meditação profunda, durante a qual percebeu sua mente cheia de dúvidas, incertezas e tentações, permaneceu focalizado no instante absoluto e, ao ver a estrela da manhã, subitamente despertou e exclamou: "Eu e todos os seres do céu e da terra, simultaneamente, nos tornamos o caminho".
Sutra do coração. É um dos ensinamentos mais profundos, talvez um dos mais difíceis de serem acessados porque estamos falando de vazio, que não é a negação do que existe. Sua compreensão profunda diz respeito à manifestação da natureza essencial, à natureza de Buda, sendo Buda a definição daquele que acordou, despertou para a verdade. A experiência mística de Shakyamuni Buda referente a essa manifestação da natureza essencial pode ser descrita como sendo eu, a grande Terra, e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o caminho.
Não há um eu, mas me percebo integrado a tudo que existe. Essa é a experiência que o torna um Buda, um ser iluminado. Em uma analogia a um pedaço de tecido que é feito de tudo que não é tecido, em que, para que o tecido exista é preciso que tudo que não é tecido exista, o eu também é feito de tudo que é "não-eu". Ao fim da vida, Buda pediu que fosse feito do darma, da verdade, fruto dessa experiência mística, o verdadeiro mestre e que assim não houvesse lamento, pois tudo que começa um dia termina. O sutra do coração diz respeito à profunda compreensão da natureza de todos os fenômenos.
O começo. O sutra inicia com o Bodhisattva (manifestação da mente humana, a pura compaixão) Avalokiteshvara que, inspirado pela meditação de Buda, movido por forte compaixão pelos seres, se põe a meditar. Praticando prajnaparamita (a sabedoria que nos faz atravessar, nos faz compreender), percebe claramente (ver o que é como é) o vazio dos cinco agregados (corpo físico, sensações, percepções, correlações mentais e consciência), todos vazios de uma existência intrínseca: tudo está se transformando continuamente, não há nada fixo, permanente, pois em tudo há uma dependência de causas e condições.
A vida. Tudo que existe é o cossurgir interdependente e simultâneo. Nós somos a rede, a teia da vida, nós somos a vida da Terra, interconectados, interligados com tudo que existe, um corpo único. Muitas vezes nós nos esquecemos do que somos, do que é a vida, uma manifestação interdependente, impermanente, vazia de existência inerente. Assim, toda a nossa prática é para que cheguemos no aqui, no agora. A vida é processo em transformação, tudo o que fazemos, falamos e pensamos é a realidade, o agora é onde está a nossa vida e é essa vida que precisa ser apreciada. Vendo-a como ela é, um conjunto de ações interconectadas onde a vida na Terra é a nossa casa, onde nós somos a vida na Terra, surge uma corresponsabilidade e uma correação amorosa (não de raiva, rancor ou vingança) de transformação - isso é compaixão. Nós podemos escolher. Como seres humanos, temos a capacidade de escolha, sem apego ou ilusão, percebendo que o outro sou eu, rompendo a barreira entre o "eu e o outro", para que meu coração de compaixão saia da visão egóica.
Descanso da alma
Arranje um cantinho sossegado e uma almofada gostosa. Acenda um incenso de sândalo. Sente-se com as costas bem retas. Inspire profundamente e solte o ar lenta e completamente pela boca. Mantenha os olhos entreabertos, pousados a sua frente. Ouça todos os sons. Sinta todas as fragrâncias. Não julgue. Que bom estar viva. Este instante aqui e agora é o céu e a terra. Isso é tudo. Tudo é nada.
Ana Elizabeth Diniz
Especial para O TEMPO |