Meu nome é Coen. Co significa só. En significa círculo. Vem de um poema antigo zen budista da China, sobre a iluminação. Mente lua Só e completa A luz faz com que todas as formas se manifestem Quando luz e forma são transcendidas O que é?
Poemas como esses são fonte de reflexão não dualista sobre a vida-morte. Meu mestre de ordenação monástica, Maezumi Roshi, falecido abade e fundador do Zen Center of Los Angeles, quando escolhia o nome de seus e de suas discípulas levava em conta alguma qualidade espiritual. Bem, desde que comecei a praticar Zazen de forma sistemática no ZCLA nunca quis me relacionar pessoal ou passionalmente com ninguém. Estava trabalhando como contratada local da agência do Banco do Brasil, em Los Angeles. Morava em Hollywood, na rua que sobe em direção ao grande nome de letras brancas na montanha. Pelas manhãs passeava e corria com um cão chamado Joshua. Grande companheiro, Dinamarquês azul, que uma vez recebeu as bençãos de um gambá (havia gambás nas ruas) e fiquei horas o banhando com suco de tomate para depois descobrir que melhor do que suco de tomate era um produto vendido em qualquer supermercado da área, contra o cheiro do gambá. Foram tempos bons, foram tempos ricos. Ricos em descobertas. Pelas manhã acordava e depois de meus passeios com Joshua ia ao templo, que ficava entre minha casa e o banco. Meditava. Zazen se chama. Sentar-se em Zen. Silenciosa. Olhando para a parede. Pernas cruzadas, sentada no chão. Éramos muitas pessoas. Todos norte americanos. Menos nosso orientador, um monge japonês que se naturalizara norte americano. Mais tarde vieram pessoas de outros países. Vieram meditar conosco. Fazer retiros. Ficar temporadas. Eu mesma fiquei como trainee (treinante) por um período de três meses. Pedi demissão do banco e me entreguei ao que dava sentido à minha vida. Sacrifícios? O sagrado ofício de viver. Afastei-me de meu amado companheiro Joshua. Ele ficou com meu ex-marido e sua nova esposa. Deixei o trabalho no banco, que era agradável e bem remunerado. Fui cortando os cabelos longos e cacheados. Deixei as aulas de ballet clássico - eram três horas todos os fins de tarde e quase cinco nos finais de smana. Estava magra, enxuta, Também abandonei a natação nas doces praias da Califórnia. Deixei os regimes, as dietas. E me sentei. Sentei em Zen. Retiros, estudos, silêncios. Um quarto solitário. Living alone. No meio de uma grande comunidade de praticantes, morava só. Meus aposentos, ou melhor, meu quarto era no andar superior, logo acima da sala de meditação. Era um quarto simples, dividido ao meio por uma cortina. Essa cortina separava a parte da entrada, onde havia um altar e duas almofadas pretas no chão, que era coberto de tapete. Era a sala de entrevistas particulares com a Monja Charlotte Joko Beck, uma das maiores mestras Zen dos Estados Unidos. Do outro lado da cortina eu tinha um tatami no chão, uma cadeira giratória, grande, de madeira antiga e um closet onde guardava duas ou três mudas de roupas simples, escuras. Roupas de prática. Não precisava mais de chaves, cartões de crédito, discussões com marido. Estudava o Darma de Buda. Darma significa a Lei Verdadeira, os ensinamentos deixados por Xaquiamuni Buda. Os historiadores não sabem ao certo as datas de seu nascimento e parinirvana. Por volta do século VI antes do nascimento de Jesus Cristo. Sidarta Gautama era filho de um rei, um nobre, um proprietário de grandes terras, um militar, um político. Com dezenove anos de idade deixou seu castelo, seu filho recém nascido, a esposa amada e foi à procura do sentido da vida. Por que há sofrimento? Por que e para que nascemos? O que é a velhice, a doença, a morte? Se Sidarta Gautama teve esses pensamentos há mais de dois mil e quinhentos anos eu também os tivera: o que é Deus? E seguindo suas pegadas invisíveis comecei a fazer zazen. Postura correta. Alinhamnto da coluna. Respiração sutil e profunda pelas narinas. Orelhas em linha com os ombros, nariz em linha com o umbigo. Consciente do ar entrando e saindo. Consciente dos sons, odores, sensações, percepções, conexões mentais, consciência. Ciência, ciente, conhecimento. Procurando, penetrando a mente através da própria mente. Fascinante. Revendo, relendo a própria história. Agora sem julgamentos. Compreendendo a tapeçaria da vida. Tudo interligado, interconectado. A grande teia, a grande rede da existência. Agradecendo a tudo e todos que me fizeram chegar a este instante presente. E neste instante presente ser capaz de apreciar a vida. A minha vida, a sua vida, a vida da Terra. Pois somos a vida da Terra. Nada fixo, nada permanente. Nem mesmo um eu a que se agarrar. Estamos nos transformando, girando, mudando, interferindo, recebendo inferências sempre no agora. Podemos escolher entre ser marionetes ou estarmos no controle de nós mesmas. Uma longa jornada. Talvez nem longa, eu diria. Apenas uma jornada de conhecimento. O auto conhecimento é o conhecimento do todo. Buda, depois de uma semana de meditação sentada, sob a árvore Bodhi (árvore da iluminãção em Bodhigaya, na Índia), tempo passado pelas várias etapas da mente dualista, ao ver a estrela da manhã, no oitavo dia, exclamou: "Eu, a grande terra e todos os seres, simultaneamente nos tornamos o Caminho". O todo, o uno, o caminho inclui todo o multiverso. Essa experiência mística, chamada de iluminação fez dele um ser diferente do que era antes. Quando nos percebemos a vida da Terra passamos a cuidar com mais respeito de nós mesmas, de nosso corpo comum: plantas, animais, ar, solo - tudo que existe. E hoje, quando tanto se fala de sustentabilidade, de meio ambiente, de aquecimento global, de reduzir gases, de manter condições propícias para a vida humana na Terra e uma vida com qualidade, fico pensando em Buda, em todos os seus seguidores e suas seguidoras que fazem o voto de nunca fazer o mal, sempre fazer o bem e sempre fazer o bem a todos os seres. Assim, cada um, cada uma de nós, que seja capaz de estar íntegra, inteira, completa em cada instante perene, apreciando a experiência única desta vida humana, neste momento, neste lugar e assim sendo fazer o seu melhor estará fazendo o bem a todos os seres. Fazem quase trinta anos que me tornei monja zen budista. Fui ordenada na Califórnia. Fui treinada no Japão por inúmeros grandes monges e monjas. Voltei ao Brasil em 1995. Continuo vivendo sozinha. Eu e todos os seres do multiverso (já não é mais universo, lembrem-se disso). Interligada a toda a trama da existência, sendo essa trama, acredito que nós, seres humanos, homens e mulheres, crianças, adolescentes, idosos e idosas, nós estamos passando por uma mudança em nosso modelo mental. Transformação de uma mente pequena e limitada, cheia de fronteiras, obstáculos, para a grande mente, imensa, ilimitada, sem fronteiras e sem obstáculos. Cada obstáculo se torna um portal. Aprendemos corrigindo erros. E como humanidade crescemos, amadurecemos e nos tornamos capazes de verdadeira compaixão plena de sabedoria. Que todos os seres se beneficiem. Quet odos possam ter o suficiente. Que todos possam ser felizes. Mãos em prece Monja Coen qual o sentido da vida, da morte? |