Entrevista a Natasha Dal Molin
Em visita à capital federal, a monja Coen concedeu entrevista exclusiva ao Comunidade VIP, revelando alguns dos valiosos ensinamentos zen-budistas, a importância da meditação e o papel das diversas religiões no crescimento espiritual de cada indivíduo.
Ela é missionária oficial da tradição Soto Shu Zen Budismo e foi o nome responsável pela criação da Comunidade Zen-budista no Brasil. A monja Coen Sensei profere palestras por todo o país e leva os ensinamentos de Sidharta Gautama, o Buda, para as pessoas de diferentes religiões, contribuindo nas discussões sobre os mais variados assuntos, de saúde a meio ambiente, passando por questões sociais e pessoais. Em 1997, tornou-se a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano.
Nesta entrevista exclusiva ao Comunidade VIP, a monja, em meio aos belos jardins da Casa Cor, momentos antes de uma palestra que proferiu no local, falou sobre como os preceitos zen-budistas podem contribuir para a saúde, os benefícios da prática da meditação, entre outros temas.
Como a senhora definiria qualidade de vida?
Primeiro, precisamos lembrar que, um dia, nós vamos morrer. Então, por que não apreciamos a vida enquanto estamos vivos, enquanto estamos aqui? Às vezes, estamos tão ocupados em fazer coisas e chegar aos objetivos, que não vemos a beleza da caminhada. Como é maravilhoso poder olhar, ouvir, sentir odores, caminhar e desenvolver a mente para aumentar as capacidades de percepção da realidade! Mesmo quem tem deficiências pode superá-las. No Japão, temos uma monja que era gueixa e teve os dois braços cortados por um homem enfurecido e embriagado. Apesar disso, ela pinta, costura, come e vai ao banheiro sozinha. Todos nós temos capacidade de recuperação e de superação das nossas insuficiências e deficiências. Portanto, cada problema, cada obstáculo, pode se tornar um portal. No budismo, temos um mala, um rosário budista com 108 contas. Dizemos que são 108 portais para a iluminação, correspondendo a 108 obstáculos. São oportunidades de aprendizado. Essa mudança de perspectiva dá energia à vida. Jamais diga: “Daqui a pouco, vou fazer o meu melhor, vou economizar”. Não, não há economia, porque o momento não se repete: é único.
Qual é o verdadeiro significado da palavra “zen”?
“Zen” significa meditação. E a meditação não é relaxamento, mas entrar em contato com você mesmo, e conhecer-se em profundidade. Às vezes, as pessoas confundem um pouco isso. Se puser um sofá para deitar e colocar uma musiquinha, não significa que esse local seja “zen”; apenas é um lugar agradável, para relaxar. Já um espaço de meditação deve ser propício não para deitar, mas para sentar, respirar conscientemente e entrar em contato com os aspectos mais íntimos de nós mesmos. A experiência zen refere-se à percepção de que estamos ligados com tudo o que existe. Esta percepção nos torna mais acolhedores para com o outro e para o que for que esteja acontecendo conosco.
Esse “tudo” ao qual a senhora se refere seria Deus?
Nós não falamos essa palavra no budismo. Não é interessante? (risos) Buda diz assim: “Tudo o que existe tem uma causa”. Então, perguntavam a ele: E qual a causa primeira? Ele silenciava. Ele nunca negou, mas nunca afirmou.
Um aspecto que chama a atenção no zen-budismo é a mendicância. Isso faz parte da preparação de quem deseja ser monge?
A mendicância ocorre após você se tornar monge. Buda era mendicante. Ele abandonou o seu castelo, a sua vida de riqueza e foi viver de doações, daquilo que as pessoas davam a ele. Ele nunca mais, vamos dizer, trabalhou para ganhar dinheiro. Não plantou nem criou animais, porque ele teria de parar em um lugar para fazer isso. Então, ele levava uma vida nômade, de ensinamentos, de ir aos lugares aonde era chamado e, quando ele chegava a esses locais, as pessoas faziam doações. Os monges, para poderem comer, iam pedir esmola de porta em porta; as pessoas que davam se sentiam abençoadas por poder oferecer esmola a alguém que não estava pedindo por ser pobre ou excluído, mas porque resolveu sair da sociedade e viver uma vida religiosa. Então, todos os monges, na verdade, são mendigos. A mendicância faz parte da nossa vida monástica. No Japão, as monjas saíam para pedir esmolas uma vez por mês. Não porque o nosso convento necessitasse de recursos, mas para manter a tradição e nos lembrarmos de que vivemos daquilo que as pessoas nos dão. Quando você recebe o dinheiro, é preciso pensar em como vai gastá-lo. Não se pode comprar coisas extras, desnecessárias, porque aquele dinheiro foi acumulado pelo trabalho e sofrimento de muitas pessoas. Portanto, a ideia da mendicância é dar maior valor às coisas.
Esse tipo de doação é, então, diferente daquela feita às pessoas mais pobres?
São situações diferentes. O monge opta por essa renúncia ao mundo. E quando você dá essa esmola ao monge, você não está dando para esta pessoa, mas para os ensinamentos de Buda. Se você acha que esses ensinamentos são bons e você quer que eles continuem, de fato eles permanecem por meio dos monges, livros que vão ser escritos e trabalhos a serem realizados. O pedinte de rua não fez um voto monástico, não está passando os ensinamentos de Buda para você, não medita, não tem uma tradição religiosa espiritual de prática e de treinamento. Ele é uma pessoa que está sem condições de se manter. Já o religioso mendiga por escolha. Ele dedica sua vida e todo o seu tempo hábil a estudar os ensinamentos e a transmitir esses ensinamentos.
O budismo é uma religião ou uma filosofia de vida?
É uma religião de milhões de adeptos, sendo uma das mais predominantes na Ásia. As pessoas vão aos templos, acreditam em milagres e tudo o mais. Estamos falando, portanto, de algo que tem todas as características de uma religião. E também é uma maneira de se viver. Acho que todas as religiões devem ser assim. Deve haver uma mudança, uma transformação na vida. Quem é cristão, por exemplo, tem a filosofia de Jesus como orientação sobre como deve ser sua forma de viver.
No Brasil, há várias religiões. O sincretismo religioso é positivo, em sua opinião?
A palavra religião pode ter dois sentidos: pode ser religare ou relegere, que quer dizer “ler de novo”, “avaliar novamente”. Se colocarmos sob esse aspecto, da religião ser uma oportunidade de releitura da vida, de querer fazer um mundo melhor, ela está cumprindo a sua função, independentemente de sua origem. Os japoneses, assim como os brasileiros, são capazes de ter várias religiões simultaneamente, e uma não exclui a outra. Contudo, não há uma mistura. O altar de Buda não é misturado ao altar cristão, por exemplo. Eu acho que nós, humanos, temos vários níveis de espiritualidade, de compreensão e necessidades. E as linguagens espirituais são quase como linguagens étnicas. Elas vão bater em pontos diferentes da nossa psiquê. Buda dizia: “Se você achar bom o meu ensinamento, use-o. Se não achar bom, jogue-o fora”. O budismo é uma religião muito experimental; não há dogmas os quais você seja obrigado a aderir, mas você tem que procurar vivenciar os preceitos e ver se eles fazem sentido. Por fim, acredito que ter várias religiões é algo positivo, mas é importante ter discernimento daquilo que é ou não correto. Devemos ter o cuidado de não chegar a extremos, do tipo “só a minha religião salva, e eu quero destruir as outras, porque só a minha é verdadeira”. Não é isso. É como se fôssemos subir uma montanha; há inúmeros caminhos para chegar ao destino, mas não posso dizer que o caminho que eu escolhi é melhor do que o outro. É o melhor para mim. Mas as outras pessoas devem ter outras opções.
A senhora acredita que os brasileiros têm a disciplina necessária para meditar?
Meditar não é uma coisa oriental, mas humana, do nosso cérebro. É uma capacidade comum a todos os seres humanos, de todos os países, de todas as etnias, que precisa ser desenvolvida, treinada, como tudo na vida. Aquilo que não é usado, murcha, atrofia. Se formos analisar bem, quase todas as religiões têm momentos de silêncio e de introspecção, porque faz parte da mente humana. Para que você tenha compreensão sobre o que é meditar, é preciso desenvolver uma disciplina, e tornar a meditação um hábito.
Algumas pessoas utilizam a palavra “meditar” no sentido de “pensar em uma solução”. Mas a meditação não seria o não-pensar?
Em português, a meditação é um verbo transitivo indireto, que exige objeto. Então você medita “em que” ou “sobre o que”. E não é isso. A meditação é você perceber o movimento da mente. Você percebe o pensamento e o não-pensamento. Portanto, não é “não-pensar”. Eu observo que eu tenho memórias, sensações, percepções, conexões mentais e também que há momentos em que tudo é um grande silêncio e que minha mente também silencia. A essência do meditar é o abandono do eu. |
Comentarios
Admiro Lama Choen e os ensinamentos budistas
RSS para comentarios a este post.