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Entrevista
com Coen Sensei, monja zen-budista
por: Mariana Sayad
e-mail: mariana@wmulher.com.br
02 de agosto de 2000
Monja
Coen, nossa entrevistada desta semana, estará falando sobre
o Zen Budismo que é uma das linhas do Budismo. Como isso
mudou sua vida e sua maneira de ver o mundo.
WM - O que a fez se tornar monja? Como e quando isso aconteceu?
Monja
Coen - Eu me interessei pelo Zen através do Zazen (meditação
sentado) e da meditação. Ao fazer, na prática
religiosa, descobri que era a melhor coisa que tinha acontecido
e poderia acontecer para qualquer pessoa. Como é que não
poderia dedicar o que resta da minha vida a essa prática.
WM
- A senhora foi influenciada por alguém? Quem?
Monja
Coen - Pelos Beatles (risos), é verdade. É interessante
isso, porque tiveram várias influências, nunca podemos
dizer que o que fazemos na vida foi uma coisa só que influenciou,
é uma série de causas, circunstâncias e condições.
Mas, o que mais me interessou é porque os Beatles faziam,
não era fã deles, eu ouvia muito pouca música
sempre fui uma pessoas mais de verbalização de palavras,
lia e escrevia muito. O mais me impressionava neles (Beatles) era
a simplicidade, a capacidade de carisma e o controle de massa. Notava
que eles eram extremamente inteligentes e ágeis, isso me
fascinava. Quando vi que aqueles meninos, estavam fazendo uma coisa
chamada meditação. Quando fui morar em Londres, comecei
a reparar que várias grupos de música faziam a também.
Isso ficou no fundo da minha cabeça, antes de voltar ao Brasil,
comecei a fazer uma espécie de meditação sozinha,
inventar uma coisa, deve ser isso agente senta e começa a
fazer "ononon...". Era uma delícia.
Quando
voltei ao Brasil continuei a fazer os meus "onzinhos",
ler alguns livros que me deram e diziam que quando você fizer
esse "on", imagine seu guru lá na Índia.
Então, tem um raio de luz que vai do centro sua cabeça
até ele, outro que vai da garganta até ele e outro
que vai do coração até ele. Era uma delícia.
Quem
era o guru que eu estava ligada não sei, mas era muito agradável.
Quando fui morar nos Estado Unidos, comecei a praticar com alguns
grupos, mas queria fazer a posição de Lótus
completa (colocar o pé esquerdo sobre a coxa direita e o
pé direito sobre a coxa esquerda; as plantas dos pés
ficam voltadas para cima). Mas, ninguém tinha falado muito
dessa posição, principalmente, quando eu li um livro,
que falava das ondas mentais alfa, e comecei a me indagar se aquilo
que estava fazendo em meditação era alfa. Será
que estava fazendo certo ou estava invento algo novo? Então,
fui procurar Zen Centro de Los Angeles.
Antes
disso, fui trabalhar no Jornal da Tarde e tiveram coisas que me
influenciaram muito nessa época. Primeiro, nossa visão
de mundo, esse contato que você tem com todas as esferas da
vida, com os todos os seres de diversas as camadas, transformam
o ser, você deixa de pensar só num grupo de uma maneira,
você percebe que os valores que te deram na escola, na casa,
na família e naquele bairro são muito relativos a
eles mesmos. Você começa seres que vivem com outros
valores e padrões e, então acaba quebrando aquele
seu senso de valores, você fica meio balançado. É
uma coisa interessante. Nisso fizemos uma matéria sobre grupos
e sociedades alternativas e eles falavam das comunidades Zen, nos
Estados Unidos. Em que estavam buscando uma alternativa para a sociedade
norte americana, era mais ou menos depois da guerra do Vietnã.
Quando os estudantes saiam na rua fazendo passeatas, naquela época
a juventude tinha muito interesse de mudanças sociais, houve
um momento era muito isso, "nós queremos transformar
o mundo". E os monges vietnamitas que se queimavam e esmolavam.
Uma das fotos que apareciam na imprensa naquela época, tinha
uma em que um monge sentado em meditação e tudo pegando
fogo a sua volta, que controle é esse? Como é que
um ser humano com aquele fogo? Com tudo isso que dói terrivelmente
como é capaz de ficar imóvel? Será que eu posso
conter isso? Então, isso me chamou.
Houveram
vários eventos e eu acabei indo para os Estados Unidos, em
Los Angeles esse livro de ondas mentais alfa dizia, que quando estamos
em zazen, estamos em alfa. Então eu perguntava ao monge:
a ciência usa elétrons, existem várias maneiras
para induzir alfa. O que acha disso? Não precisa ficar sentado
em meditação, uma máquina, uma droga ou uma
música você entra em alfa. Ele respondeu, "para
que entrar pela janela". Essa frase eu achei maravilhosa, para
que entrar pela janela, se existe a porta. Não precisa de
indução de nada, nós naturalmente, podemos
entrar nesse universo que é ondas alfa, que é paz,
tranqüilidade e a maior capacidade nossa mental.
WM
- Porque resolveu seguir a tradição Zen Budista?
Monja
Coen - Foi por causa do Zazen, sai em busca de meditação.
E no Zen budismo a base da prática é a meditação
sentada, foi através dessa meditação foi que
eu entrei em contato com a essência do ser. Foi a partir daí
que eu comecei a me interessar por religião, até então
não tinha nenhuma, dos 13 aos quase 30. Questionava muito
isso chamado Deus, existe isso? Onde fica? Que história é
essa? Porque agente nasce? Porque agente morre? O que é morte?
Eram as coisas que eu perguntava. O questionamento principal era
o que é Deus. Principalmente sendo criada em família
Cristã, através da meditação você
começa a encontrar essas resposta dentro de você e
não coisas que estão escritas em livros, a minha experiência
foi essa de prática, não tinha lido nada sobre o Zen
Budismo, não era uma pessoa interessada pelo Japão
e pela cultura japonesa. Era uma coisa muito distante quanto brasileira,
quando viajava pelo mundo pensava em ir para a Europa, EUA e para
a Índia, mas o Japão não passava pela minha
cabeça. Mas, quando o meu coração se abriu
para o Zen Budismo e essa meditação me trouxe as respostas,
então, quando comecei a ler os textos sobre Budismo, pensei:
então aquilo que eu experimentei está aqui no texto,
eles estão colocando em palavras aquilo que eu sei que é
verdade, que analogia boa. Então foi um processo da experiência
entrar na teoria e não ao contrário.
WM
- Como foi a aceitação da sua família quando
decidiu ser Monja?
Monja
Coen - Meu pai não segue nenhuma religião, ele é
meio incrédulo das pessoas religiosas, porque ele acha que
estão sempre colocando ilhais acima das possibilidades humanas.
Então, ele nunca foi muito favorável as minha religiosidade
que eu tive aos 12 e 13 anos, quando queria ser freira. Quanto ao
Budismo, nunca disse nada.
Já
a minha mãe dizia: "você é cristã,
nasceu cristã. Por que você não vira freira?
Já que você quer servir a Deus, venha servir dentro
da sua tradição". Então comecei questionar
com ela e comigo o que é a minha tradição;
a tradição Cristã não é brasileira,
é importada, nasceu na África e se espalhou. Ela não
é nativa nem do Brasil, nem de Portugal, de onde veio a minha
família, é tão estrangeira quando o Budismo.
Então,
não tenho essa tal tradição. Comecei a discutir
comigo mesmo e sempre ficava aquela coisa, nossa estou traindo a
minha religião: nossa que coisa medonha que eu estou fazendo,
desde criancinha ensinaram ler Padre Nosso e Ave Maria, tinha aquelas
imagens de Jesus em casa, sempre tiveram.
Teve
uma fase que foi um pouco difícil, até que apareceu
uma espécie de um sonho, era uma coisa muito viva e clara,
em que Jesus e Buda conversavam, estavam na mesma esfera e no mesmo
nível. São como grandes amigos, que falam a mesma
linguagem, que se compreendem. E porque que eu estava fazendo essa
batalha entre os dois enquanto, não existe isso no nível
superior. São coisas que nós criamos, tão pequenas
e limitadas. Se essa tradição é a que responde
ao meu coração, porque não.
Sem
que eu falasse disso com a minha mãe, ela me ligou e disse
"acho que você está servindo a Deus, seja qual
for a religião escolhida. Então vá minha filha,
eu te abençoou", disse a ela que não podia me
tornar monja sem a sua benção. No dia que ela disse
isso para mim, foi num domingo de manhã, fui falar com o
meu professor, não contei minha conversa com minha mãe,
"quero marcar a minha ordenação". Então,
ele abriu o calendário dele e disse "que tal no dia
14 de janeiro" e eu disse "está ótimo".
Minha mãe, a partir do meu interesse pelo Budismo, começou
a estudar sobre o Zen Budismo, ela é muito interessada em
psicanálise. E me lembro quando fazia minhas curtas incursões
no Brasil, ela reunia as amigas dela para falarem sobre o Zen Budismo
e me chamava para debater. Então comecei a perceber que ela
começou a defender e ensinar a elas sobre o Zen Budismo,
achei interessante. E o meu pai vem aqui todo domingo e oferece
um incenso no altar ao Buda e um dia me perguntou "posso fazer
um pedido" e falei " quantos você quiser",
ele todo bonitinho, coloca as mãos palma com palma, oferece
o incenso, olhando para o Buda, conversando com ele e pedindo as
coisas que ele quer pedir.
WM
- Como era sua vida antes do Zen Budismo?
Monja
Coen - Ficava brava, muito brava. Triste, muito triste e alegre,
muito alegre. Hoje eu fico triste e alegre, mas era diferente, porque
era como se eu fosse uma marionete. As pessoas eram capazes de mexer
demais comigo, conforme o que me falavam. De repente o Zen Budismo
dá uma estabilidade e um centro. Você sabe que isso
existe, você consegue voltar mais rápido, continuo
tendo problemas, mas são transitórios. Não
fica muito pegajoso, nem "lamacento". É mais rápido
o processo, é mais profundo, você fica mais em contato
com os seus sentimentos, suas tristezas e alegrias são mais
profundas e quietas.
WM
- Como fica o quesito celibato para monges budistas?
Monja
Coen - Dentro da tradição japonesa, dos monges budistas
japoneses, é a única, em que permite casamento. Então,
alguns outros grupos de budistas dizem que os monges japoneses são
meios leigos, porque eles se casam e constituem família.
Também
dentro da nossa tradição japonesa, não são
todos que se casam, geralmente, os abades os Mosteiros Cedi, se
eles são casados, se divorciam para assumir a liderança.
Isso ainda é uma exigência para os mosteiros Cedi e
alguns de treinamento monásticos. A maioria dos monges do
Japão, mais ou menos 90%, são casados e das monjas,
mais ou menos 90% delas, são celibatas. Não é
proibido, mas é esperado.
WM
- Qual o significado de raspar a cabeça?
Monja
Coen - Nem todos os monges budistas raspam a cabeça, na nossa
tradição Zen é mais enfático isso, em
outros grupos não. É fazer o que Buda fez. Cabelo
na Índia era sinal de Casta, avalia o nível social
que você é conforme o tamanho do cabelo, o corte e
o penteado. Então, raspar a cabeça é manter-se
fora da casta e, a outra coisa, é não ter apego.
Hoje
em dia, é algo atemporal, olhar uma pessoa de cabeça
raspada e uma roupa que se usa há muitos séculos,
não é exatamente do futuro, nem do passado e nem do
presente, mas está presente dentro da impressão.
Uma
outra coisa que acho importante, minha abadessa, minha professora
no Japão, costumava dizer: "quando você anda na
rua, não é você, e sim, um monge, é um
discípulo de Buda. Então, lembre-se que tudo que você
faz é o Budismo que está fazendo, tudo que você
está criando é uma imagem para o Budismo".
Isso
era interessante, porque tinham algumas monjas, inclusive eu, que
íamos comprar um chocolate e dava vontade de comprar aquele
caro e gostoso, mas, ficava pensando, "sou monja e ganhei esse
dinheiro com esmola e não posso ficar esbanjando". E
comprava o mais barato. Então, a cabeça raspada tem
uma certa importância, porque você na rua é um
Sermão ambulante, se alguma pessoa está triste e desesperada,
quando vê um monge andando pela rua, só a figura já
faz a pessoa lembrar da sua parte espiritual.
WM
- Qual a sua opinião sobre os jovens de hoje, que segundo
o Papa João Paulo II, estão "matando" Deus?
Monja
Coen - Como você pode matar o que não sabe o que é.
O que você não encontrou. Um dia me contaram uma piada,
que gostei muito. Tinha dois meninos muito levados e a freira não
agüentava mais e resolveu levá-los ao Padre, quem sabe
ele faz alguma coisa. Chegou e falou com o padre "fala com
o Zezinho e com o Paulinho, pois estão insuportáveis,
ninguém consegue dar aula com eles". Então, o
padre pensou o que falaria para eles. "Manda entrar, mas um
de cada vez", entrou o Zezinho. O padre perguntou "você
sabe onde está Deus?", o Zezinho fechou os braços
e respondeu "não". "Como não",
retrucou o padre, "Onde está Deus? Zezinho", onde
está?, me diga, onde está?" Desesperado, Zezinho,
saiu correndo da sala batendo a porta e falou com o Paulinho "vamos
sair daqui rápido, porque Deus desapareceu e estão
querendo nos culpar" (risos).
WM
- O Budismo tem várias linhas, quais são as principais
diferenças do Zen Budismo das outras linhas?
Monja
Coen - A palavra Zen, quer dizer estado de meditação
profunda. É que a base da prática é o Zazen.
Nós nem chamamos de meditação, e sim, de Zazen,
sentar-se em Zen. Porque não é meditar em alguma coisa
ou ficar pensando em algo, nem usar Mantra, nem usar visualizações
de alguma coisa, não é repetir um nome sagrado. Mas,
estar presente e em contato com a essência do ser, não
é diferente da essência de tudo que existe. Enquanto
as outras tradições evocam o nome de Buda, algumas
evocam o nome de um Sutra sagrado, dizendo que esse Sutra é
o próprio Buda, porque o seus ensinamento é o corpo
dele. Como em outras tradições tem vários rituais
para entrar em contato com essa unidade.
WM
- Ao vir para o Ocidente, o Budismo passa por alguma adaptação?
Monja
Coen - Está sofrendo adaptações ainda, agente
não fala de um Budismo praticamente Ocidental, está
se comentando muito sobre o Budismo norte americano como algo que
já tenha entrado no espírito da cultura da América
do Norte. Na verdade, ainda é muito cedo pra falar isso,
porque o Budismo no Ocidente tem, praticamente, um século
de existência; é muito pouco para fazer uma adaptação
cultural. Mas, tem sido feitas muitas mudanças, na Índia
tinha algumas características da linguagem e da cultura,
a linguagem traduz muito a maneira de pensar de um povo. Quando
passa para a China e é feita a tradução, vai
entrar no pensamento chinês. Da China vai passar por outros
países, o Japão por exemplo, haverá uma aculturação
do pensamento japonês.
O que estamos recebendo, por esse templo, é o Budismo japonês
que está chegando no Brasil. Algumas diferenças, por
exemplo, um dia fomos fazer uma palestra com o novo Superior Geral
e algumas pessoas presentes na palestra me falaram: "É
tão difícil dizer que apreciamos a palestra dele,
porque ele fala de vários assuntos e não faz a conexão".
Então respondi, "isso é muito maneira japonesa
de ser, porque você fala uma coisa e outra, deixando que o
ouvinte faça a conexão em vez de dar o 'prato pronto'".
É uma diferença educacional. É a mesma coisa
se eu chegar aqui falando o português de Camões, ninguém
iria entender nada. O que faço de traduções,
procuro muitas vezes deixá-la literal, porque acho o gosto
japonês agradável. Por isso, algumas pessoas me criticam
porque muitas vezes não acham muito bonito, nem muito poético
em português. Mas, queria que sentissem , um pouco, a sutileza
da língua japonesa.
Uma das coisas que me impressionaram no Japão foi a gentileza
das pessoas, independente das discriminações que existem;
é no dia a dia. Acho que isso é importante, muda nossa
maneira de ser. As coisas boas que vemos em outros países,
podemos incorporar nas nossas.
WM
- O que a Senhora aconselharia para quem está iniciando no
Zen Budismo agora?
Monja
Coen - Zazen. É bom ter alguém que já tenha
tido alguma experiência para orientar. Porque alguns pensam
que é só sentar e ficar divagando, pensando, imaginando
e sonhando, mas não é isso. Uma das coisas que recomendamos,
é que faça o Zazen, quando aprender, pelo menos duas
vezes por dia, de manhã e de noite.
Procurar dar uma continuidade na prática, nós somos
aquilo que fazemos. Quando fazemos a prática de Buda, ele
se aproxima de nós, quando paramos ele se afasta. Outro dia,
estava lendo um texto do Dalai Lama, que é de outra tradição,
que dizia assim: "quando uma pessoa quebra os preceitos, é
como se ela estivesse tirado coroa de ouro, que é levíssima,
e tivesse colocado uma coroa de ferro pesadíssima na cabeça".
Então tudo que é agradável de se ter é
substituído por um grilhão que te aperta e pesa.
WM
- Como a Senhora definiria o Zen Budismo?
Monja
Coen - Gosto muito do que um monge que viveu no século oitavo
na China, quando perguntavam a ele, qual a essência do Zen?
E ele dizia "o universo é uma jóia redonda e
nós a vida desse universo, dessa jóia. Todos nós
e tudo, não viemos de fora e nem vamos ficar de fora, não
existe fora nem dentro, apenas a jóia. O Zen nos leva a realizar
e conhecer.
WM
- A senhora já conheceu várias partes do mundo? O
que mais gostou e o que a deixou mais triste?
Monja
Coen - Talvez uma das coisas de que mais tenha gostado foi o Budismo
japonês, porque tinha professores muito bons, que era melhor
do que qualquer doce, que qualquer carinho, melhor do que qualquer
coisa. Esse sentido de prática mesmo, que às vezes
não é tão agradável, bom e machuca.
Isso encontrei muito nos Estados Unidos e no Japão, vários
lugares de treinamento e professores.
Nós monges, pelo menos no Japão, independente de ter
dinheiro ou não, somos muito bem tratados, tínhamos
reuniões muito agradáveis. Agora o que achei de mais
triste no mundo e ainda acho, é a violência, em todos
os aspectos, na natureza, aquele caso do vazamento de Petróleo,
todos aqueles passarinho molhados. Dá vergonha fazer parte
de uma humanidade que faz tanta bobagem, como é que podemos
ajudar. Quando ando nas ruas de São Paulo, tem tantos pobres,
com os pés calosos e descalços, aqueles calos que
tem até um rasgo e sujo. Sem perspectiva, sem casa, largado,
perder todo o desejo pela vida e não existe mais nada que
os mova. Fica aquela sensação "o que fazer para
transformar isso?", que isso possa fazer aquelas coisas boas,
que os faça sentir serem respeitados, queridos, necessários
e participantes. Como é que você transforma isso?"
Acho isso a coisa mais triste do mundo, independente do país,
no Japão existe menos miséria do que aqui, com poucos
mendigos. É menor a quantidade, mas a tristeza e o sofrimento
são os mesmos.
WM
- Qual a sua opinião sobre a internet?
Monja
Coen - Interessante, estamos com um programa em que estamos colocando
informática dentro do Carandiru. O que as pessoas tem reclamado,
é essa globalização só esta pegando
uma parte da população, só a camada rica, então
vai ter mais pessoas excluídas.
Acho
que depende de nós não permitir que isso torne uma
exclusão, nós podemos tornar uma inclusão.
Isso vai começar, pois é natural está aumentando
muito o número de computadores, de aparelhos em si. Primeiro
eram só alguns que tinham porque era muito caro, então
foi ficando mais barato. A pessoa que tem dinheiro, está
sempre trocando por um computador mais moderno e o antigo, por não
valer mais nada, ela doa para instituições, que naturalmente,
não é último modelo, mas para começarmos
a ensinar as pessoas da favela não tem problema nenhum. Isso
é importante para que possamos romper essas barreiras.
Hoje
é muito simples falar com o mundo, de perceber que estamos
em contato, mas isso, já estava acontecendo sem a internet.
Nós vivemos em uma internet, que é uma rede interligada,
isso é o ensinamento básico, somos interligados e
interconectados, queiramos ou não. Agora inventaram uma "maquininha"
, que está mostrando isso fisicamente, para quem não
percebeu ainda, ela está tornando mais fácil, mais
rápido, do que tentarmos telepaticamente.
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