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Monja
Coen: A missionária da paz
Entrevista
com a Monja Coen
por Maria Lucia Gomes de Matos
publicada no site Amai-vos
"faça
o bem, fale o bem, pense o bem.
Perceba que cada ser que encontramos é um ser iluminado
Disfarçado a nos mostrar o Caminho.
Alguns nos mostram como não devemos ser.
Outros como devemos ser."
Monja Coen, setembro/2002)
Missionária
da tradição japonesa Soto Zen, Monja Coen Murayama
é uma religiosa que se destaca levando a prática da
meditação a pessoas que frequentam os parques da cidade
de São Paulo, além de dar depoimentos através
de suas palestras em várias universidades. Em sua exposição
na PUC-Rio passou muito de sua filosofia de vida, ressaltando o
significado zen: "que é estar muito ligado no momento,
na sua vida, é pé no chão, não é
voando lá nas nuvens". Na sua experiência de levar
meditação aos parques, as pessoas em dúvida
pensavam tratar-se de "fanáticos religiosos". Contudo,
o objetivo da Monja Coen é batalhar pela não violência
e ela considera isso possível quando se entra em contato
com a essência do ser, quando se sente a própria respiração,
o ar a nossa volta, os sons, os odores.
Suas respostas
a essa entrevista são exclusivas para o Amai-vos.
Amai-vos
Quando foi seu primeiro contato com a filosofia da tradição
japonesa Soto Zen?
Monja
Coen - Meu primeiro contato com a tradição Soto Zen
foi em Los Angeles. Eu morava nos Estados Unidos, trabalhava no
Banco do Brasil como funcionária local da Agência de
Los Angeles, tinha aulas de ballet clássico, todos os dias
depois do trabalho e nos fins de semana. Praticava meditação
seguindo o Kirya Yoga de Paramahansa Yoganandaji, fundador da Self
Realization Fellowship. Então, um vizinho me emprestou um
livro sobre Meditação e Ondas Mentais Alfa. Já
foi comprovado cientificamente que quando estamos meditando estamos
em Alfa. A repórter, autora do livro, entrevistara muitas
pessoas e entre elas um Monge Budista. A este, ela perguntara sobre
o uso de eletrodos para induzir ondas mentais Alfa. A resposta do
monge ficou marcada em mim: "se a ciência diz que é
possível é porque é. Mas, por que entrar pela
janela?"
Então
fui procurar o Zen Center de Los Angeles. Lá encontrei minha
casa, minha família de prática religiosa. Tudo se
encaixava, a forma de meditação, a posição
de pernas cruzadas no chão, a fragrância do incenso.
Era como se retornasse a um lar perdido e finalmente encontrado.
Fui me aproximando mais, conhecendo mais, em pouco tempo passei
a residir na comunidade como praticante, fui aceita como noviça
depois de três anos de prática assídua. Após
a ordenação monástica pedi para ser enviada
ao Japão e praticar num Mosteiro Especializado para Monjas
Zen Budista, em Nagoia. Estive lá por oito anos. Ainda fiquei
no Japão outros quatro anos fazendo Mestrado e praticando
em templos locais. Retornei ao Brasil em 1995.
Amai-vos
Qual seu maior ideal como missionária oriental vivendo
num contexto do mundo ocidental?
Monja Coen
- Não consigo separar completamente o mundo oriental do ocidental.
Para mim são como os hemisférios cerebrais que se
completam. Sou missionária da tradição Soto
Zen Budista, com sede no Japão. Assim, há certas características
culturais fortemente enraizadas em nossa tradição,
mas o que tenho a transmitir é a essência do Caminho
de Buda.
Buda é
o Ser Iluminado, Aquele que Despertou. Fazer com que os seres rapidamente
despertem, se iluminem e passem a viver mais harmoniosa e respeitosamente,
criando seres responsáveis, atuantes dentro de uma Cultura
de Paz.
Amai-vos
Sente alguma semelhança de princípios e sentimentos
de uma freira cristã com uma religiosa budista?
Monja Coen
- Semelhança de sentimentos e princípios com as religiosas
cristãs? Com certeza. Tivemos um encontro inter religioso
muito rico durante meus últimos anos de mestrado no Mosteiro
de Nagoia. Cerca de dez monjas beneditinas de vários mosteiros
da Bélgica (algumas praticavam na Índia, mas a casa
sede era na Bélgica) passaram um mês conosco. Foi muito
rico e nos sentimos todas muito irmãs... Há algumas
diferenças, pois as monjas zen budista tem igualdade de funções:
oficiam cerimônias, ordenações, casamentos,
enterros, etc. Algumas se casam.
Amai-vos
Como incluir a não-violência numa comunidade
carente, sofrida, injustiçada e abandonada?
Monja Coen
- Como desenvolver uma nova maneira de ser ? Através da percepção
do inter ser. Inter somos com tudo e com todos. Essa compreensão
nos transforma. A violência tem inúmeras causas e precisamos
trabalhar nas causas. No Budismo dizemos que o ser humano é
alvo de três venenos: ganância, raiva e ignorância.
Os antídotos são a doação, a compaixão
e a sabedoria. Temos de iniciar com urgência um novo sistema
educacional onde os valores de paz, de respeito à vida são
cultivados desde a infância. Cultura da Paz só é
possível com Justiça social, melhor distribuição
da renda, educação, saúde, com a transformação
do coração de cada um.
Temos de compreender
aqueles cujos corações ainda estão fechados
para a compaixão e a ternura. Temos de criar condições
para que se abram. Temos de olhar em nossos próprios corações
e pensar: será que há algum resquício de ódio,
rancor e vingança? Será que encontramos a Paz? Porque
é apenas através de nos tornarmos paz, que esta se
manifestará no social. Como dizia Mahatma Ghandi: temos de
ser a transformação que queremos no mundo. Cada um
de nós que percebe a magnífica rede de inter-relacionamentos
que é a vida, sente a dor, a tristeza, a fome, a exclusão
não no outro, mas em si mesmo, e trabalha para mudar a percepção
daqueles que discriminam e cometem injustiças. Em todos os
níveis sócio-econômicos. Mas a transformação
só acontece quando não há ódio, nem
rancor. Através da compaixão e do amor. Mahatma Ghandi
fazia passeatas não violentas. A não violência
ativa transformações, é mais efetiva do que
movimentos gerados pela violência. Temos de ensinar isto,
rapidamente. É uma nova maneira de viver, de solucionar conflitos.
Amai-vos
A união de religiões cada uma mantendo seus
princípios, seria o ideal na luta contra a violência
no mundo?
Monja Coen
- A união das religiões é muito importante
nesta mudança de paradigma. Faço parte da United Religious
Initiative - URI - (Iniciativa das Religiões Unidas) e da
Zen Buddhist Peacemaker Order (Ordem Budista da Construção
da Paz) - ambos são movimentos que incluem pessoas de todas
as religiões para a criação de uma comunidade
solidária, justa e pacífica. As religiões tem
sido usadas para manter situações de guerra. Nenhuma
religião considera a guerra, as injustiças, a fome,
a exclusão social como sistemas corretos de vida. Entretanto,
as linguagens das religiões ainda são muito exclusivistas.
A afirmação "Só em minha tradição
pode-se encontrar a salvação... " será
verdadeira ? O ser humano, na sua diversidade de línguas,
costumes, países, culturas tem uma necessidade diversa de
contato com o sagrado. Temos de aprender a respeitar e compreender
outras religiões e tradições espirituais, sem
querer convertê-los ao que nós chamamos de correto.
Não é fácil. Mas é o caminho necessário.
Amai-vos
Acha que os dirigentes das grandes nações são
responsáveis por não conter os maiores focos de violência
no mundo?
Monja Coen
- Não são apenas os dirigentes das grandes nações
os responsáveis pelos focos de violência no mundo.
Acredito que os próprios dirigentes das grandes nações
estão presos e limitados por teias internacionais, multinacionais
de interesses. Nós não sabemos exatamente que tipo
de pressões eles estão sofrendo. Todos nós
somos responsáveis pelos focos de violência. Todos
nós fomentamos a violência. Percebam as discriminações,
separações, exclusões que mantemos em nossas
vidas. Mesmo quando não são explicitadas. Olhe dentro
de si e veja se não está julgando e afastando. Mesmo
quando queremos colocar a culpa nos líderes... Nós
temos de mudar. Em nossas casas, trabalho, comunidades. Não
podemos nos calar. Não se luta pela paz. A paz se constrói
através da própria paz, tornando-se paz. Criando condições
para uma Cultura da Paz.
Amai-vos
Registre aqui uma mensagem tirada da experiência de
sua vida?
Monja Coen - Uma mensagem tirada
da minha experiência de vida : faça o bem, fale o bem,
pense o bem. Perceba que cada ser que encontramos é um bodhisatva
(ser iluminado) disfarçado a nos mostrar o Caminho. Alguns
nos mostram como não devemos ser. Outros como devemos ser.
Nossa maneira de ser iniciou-se imitando. Vamos começar a
imitar o Ser Iluminado (Buda), cuidar de todos os seres com ternura
e respeito, indicar e reivindicar o justo, sempre com amor, transformar
a indignação em compaixão e viver o Caminho
Iluminado que inclui tudo o que existe. Possam os Seres Iluminados
e Benfazejos me ajudar a manter meus votos de nunca fazer o mal,
sempre fazer o bem, sempre fazer o bem a todos os seres.
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