Cartas de Dona Branca
São Paulo, 19 de novembro de 1983
Cláudia Koen
Hoje, sexta-feira, como Adolfo não programou levar a Fábia, ela se entreteve um tempo enorme ao telefone e, agora, ouve discos e decora os textos.
Enquanto isso, e, para espairecer na tarde canicular e azul, contemplo a paisagem.
Verde, muito verde, o verde dos gramados do Pacaembu, o verde da procissão de árvores frondosas que seguem ladeira abaixo.
Nesta sensação refrescante acalentada por uma brisa que ameniza o verão, eu tenho uma sensação de paz e de beleza! E paz e beleza para mim são você.
Você – despojada das vaidades, das jóias, dos cabeleireiros e butiques de divertimentos, de namoro de tantas e tantas cadeias tentadoras deste viver mundano.
Você - que se libertou de desejos e de anseios de empreendimentos e lutas, do convívio social e do afã de mais e mais prazeres e romances!
Você – cuja alma está nua, livre, limpa.
Sem medos, sem rancores, sem paixões; alma pura e simples e vazia de temores e frustrações, você – que tudo deixou – pátria, família, amor – para ser apenas um elo entre o céu e a terra, entre o humano e o divino, e mais que o céu e a terra, o humano e o divino, porque participa de ambos:
Grão de areia que é toda a areia
Gota de água que é toda a água
Pequeno ser que é todo o Ser
Microcosmo que engloba inclui todo o cosmos
Você se identificou aos meus olhos com o verde da paisagem, com a beleza da tarde, com o frescor da brisa...
Quão gratificante este pensamento me é.
E assim, recompensada da saudade, das apreensões, da tristeza de tê-la “tão longe, de mim distante” no tempo e no espaço, eu posso voltar-me ao quotidiano, ao dia a dia, ao dormir e acordar, ao trabalhar, ao repousar, ao reunir e separar, ao conviver e ficar a sós, até que a morte, um dia, me venha buscar e eu parta, como um novo ser, para uma outra vida, “helás!”
Temos recebido suas cartas – doces visitas que vêm nos reaproximar.
Sabendo da originalidade da vida oriental num mosteiro Zen budista.
Imaginando a que extremos a sua natureza extremada levará você!
Esperando sempre por maiores extravagâncias, aventuras, riscos, predestinações, que sei eu?
Deus me fará mais um carinho em trazendo você, um dia, de volta ao país, à família e mais perto do meu coração.
Você – bela e feliz, corajosa e aventureira, descobridora de terras, de filosofias e de religiões.
Poderá um beijo levar todo o meu amor?
Mamãe
(Adolfo foi noivo de minha única filha Fábia, educada por minha mãe.)
São Paulo, 8 de julho de 1983
Para Claudia ler e transmitir ao Walter
Procurando um caderno para destacar uma folha em que escrever a você, li, na capa a inscrição “one of the best things in the whole world is a friend”.
E, justamente acabara de ler a comovedora carta do Walter! Li e reli essa mensagem tão distante e tão perto do meu coração.
Sinto-me tranqüila por Cláudia conviver com pessoa tão sensível, humana e superior.
Nós não escolhemos o pai e a mãe que a natureza nos deu. Acontece, que os amamos. Mas que diríamos de um pai ou uma mãe que elegêssemos?
Um ser, por quem a gente sentisse encantamento, admiração, fé? Um ombro onde repousar e ter paz? Um convívio que, além da segurança, nos tornaria mais sábios e profundos? A gente elegeria indiscutivelmente um segundo pai ou uma segunda mãe.
Eu tive além de minha amada mãe, uma segunda mãe que meu coração elegeu: tia Vitalina! Sempre adorei-a. Tive ídolos também, Iracema e Caio – almas gêmeas, geniais, genuínas! Isto nos faz gostar de viver.
Compreendo, pois, os laços que prendem a minha Cláudia ao Walter.
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Segundo conversamos ao telefone no dia de seu aniversário, não tive condições nem tempo para escrever antes,
Sentindo dentro de mim a dimensão do seu destino numa comunhão íntima com a Vida, a Natureza, com Deus; na simplicidade do seu dia a dia; ma autenticidade dos pensamentos e da fé; ma suavidade, na paz, na alegria que emanam de você como de uma invisível fonte, eu me sinto tranqüila e feliz por ser sua mãe.
Já não me preocupo tanto, já não sofro, já aceito estas terras, estes céus e estes oceanos que se interpõem entre nós.
Presa, embora, ao torvelinho da vida em S.Paulo e atormentada pelos problemas nacionais e internacionais trazidos pela Imprensa;enrolada aos problemas caseiros e familiares, agravados com o difícil e complicado relacionamento social tão pobre de amor, vivendo a minha vida e a de Fábia com os altos e baixos, os acertos e os erros, as alegrias e as desesperanças que lhe cabem, eu choro e oro e sofro no sofrimento dela, eu me identifico e sonho quando ela sonha e ri.
E sinto a solidão, pois Fábia tem que viver a sua própria vida, seus sucessos, insucessos no amor, suas amizades, seus divertimentos e viagens e tudo isso eu aprovo e com tudo me rejubilo por ela, sentindo-me recompensada.
A solidão é que não é boa companheira.
Diz o filósofo que o homen não “é”, o homem “vive”.
No efêmero da vida planetária, entretanto, a gente acha bom e belo o sol alumiando nosso caminho, o calor nos agasalhando.
E as obras humanas? A grandiosidade do pequenino ser terrestre que constrói filosofias, ciência, tecnologia, templos, religiões e a imortalidade da obra de arte?
Mas, maior que tudo é o sentimento da família, do amor que encadeia a mãe ao filho, a prisão amorosa que a gente adora! Viva o Amor?
Mamãe
Nota da Monja Coen: Walter era meu vizinho em Hollywood e um grande amigo. Quando o conheci tinha mais de 86 anos e foi minha inspiração para entrar no Zen Budismo, não porque praticasse o Zen, mas por me inspirar na procura da Verdade.
Fábia é minha filha, que deixei com minha mãe para viajar o mundo.
(sem data) –( provavelmente 1991 quando da Cerimônia a que se refere minha mãe nessa carta)
Cláudia Koen
A minha caçula Claudinha – estrela oriental luzindo no firmamento do Budismo.
O seu retrato – quando dos votos perpétuos e da autorização para oficiar atos religiosos – a sua fotografia, trago-a na bolsa, para exibir, como um troféu, aos amigos e conhecidos.
Que veste maravilhosa e que maravilhosa essa carreira religiosa! A minha Claudinha é monja budista...Que graça maior teria eu merecido de Deus?
No orgulho, na saudade eu lamento com o Cardeal Português de Júlio Dantas:
“Deus, si m’a quis tomar, pra que foi que m’a deu?”
Minha Claudinha metamorfoseada em um anjo! Tão longe da minha vida, do meu viver, tão perto, bem dentro do meu coração. “Helás”!
Guardei os saquinhos de chá para o inverno que ainda tarda.
Na rotina de uma velha senhora solitária vamos levando...o barco deste bom corpo que luta e vence a velhice.
Sua linda filha procura trabalho e reconstrói a vida após longos nove anos de ilusão. Deus lhe dará novos e maravilhosos dias...
De dia e de noite, pensando vou em ambas.
Mamãe
(nota em um pequeno pedaço de papel sem data)
Ainda a percorrer longo caminho
No misterioso anseio de encontrar
Tecido os teus sonhos de luar
Onde poisar feliz como num ninho
No conchego, no céu em pleno mar
Irás reconhecer devagarinho
O ser que para ti há-de chegar
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