| Buda
foi ao inferno. E os demônios ao Nirvana
Por Monja Coen
Dizem que certa feita um Buda foi
parar no inferno e que os diabos fizeram de tudo para atentá-lo.
Queriam vê-lo infeliz e sofrendo. Não conseguindo foram
perguntar a ele: "Como você consegue ficar bem no inferno?".
Buda respondeu apenas: "Ah! Aqui é o inferno?"
E esses diabinhos ficaram com ele. Mais tarde um chefe diabo veio
ver o que estava acontecendo e encontrou todos os diabinhos silenciosamente
sentados em meditação, junto ao Buda. Ele conseguira
transformar o inferno na Terra Pura. Buda não tentou destruir
os demônios, não tentou acabar com o inferno. Apenas
manteve a mente quieta e tranqüila. Nirvana é percebermos
a transitoriedade de tudo que existe e sermos capazes de tranqüilamente
agirmos para transformar as coisas de maneira que o bem seja comum
a todos os seres.
Na tradição Soto Zen
existem seis mundos ou planos espirituais. São eles: o mundo
dos infernos, dos animais, dos espíritos revoltados e briguentos,
dos espíritos insaciáveis, dos seres humanos e dos
seres celestiais. Esses mundos formam uma roda que gira sem parar.
Algumas pessoas pensam que isso se refere a diferentes encarnações,
vidas sucessivas, mas no Budismo sabemos que em um mesmo dia, talvez
até mesmo apenas em uma hora, podemos passar pelos seis mundos.
Eles seriam a Roda de Samsara, o transmigrar
incessante de um mundo a outro. Ora feliz e angelical, ora sofrendo
terríveis torturas, ora brigando e reclamando, ora insatisfeita,
ora seguindo apenas os instintos animais, ora como humanos entre
o ir e vir do saber e não saber.
Mestre Dogen (1200-1253) fundador
da tradição Soto Zen no Japão, escreveu que
Samsara é Nirvana. Muitos pensam que para entrar no estado
de Nirvana, de paz e tranqüilidade sábias, de harmonioso
extinguir das paixões e apegos é preciso morrer ou
afastar-se do mundo, da família, do trabalho, de suas atividades
e relacionamentos, ir morar nas cavernas nos montes remotos.
Mestre Dogen, entretanto, nos
diz que a própria roda de samsara é o Nirvana. Se
percebermos esse constante transmigrar, não estaremos apenas
sofrendo ou regozijando, mas aprendendo, compreendendo, transcendendo,
transformando e crescendo. Nirvana não está separado
de nossa vida, de nossos relacionamentos, de nosso trabalho, do
trânsito, dos problemas e dificuldades. Nirvana é um
estado de espírito. É perceber tudo isso e conseguir
não entrar em nenhum dos seis mundos. É ficar acima
de tudo.
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