Branca, minha mãe
Você está vivendo talvez seus últimos momentos.
A respiração é simultânea pela boca e pelas narinas.
Seus pés estão marcados por futuras escaras.
A trombose na perna esquerda a deixa inchada e quente.
Minha mãe, sua face magra e enrugada, sua boca sem dentes, revela seu nariz reto e está mais parecida com a jovem da fotografia em cima da lareira.
Como era jovem, esbelta e bela.
Aos poucos eu a vejo fechando o sistema de seu organismo.
Já não abre as pálpebras. Já não sorri. Não me beija.
Tenho vontade de ficar ao seu lado. Noite e dia, dia e noite.
Apenas tocando seu corpo forte, seus noventa e seis anos maciços que surpreendem os doutores mantendo-se vivo sem comida e sem água por mais de oito dias.
Que força da vida você é! Sempre foi!
Energia vital em plena atividade.
A menina que nasceu de Virgilina e Edmundo. Branca de cabelos negros. Pequena e rosada. Forte cresceu sem medo do nada. Às noites ficava na encruzilhada. Diziam que havia fantasmas, mulas sem cabeça, saci pererê e alma penada. Pois, quando todos dormiam saia sozinha e de pé desafiava – se existem que apareçam. Não é verdade, é medo e medo Branca nunca teve nem tem agora. Medo do nada.
Amava o pai com quem se identificava. Era forte, guerreiro, educado, cavalheiro.
“A única coisa que me separa de meu pai são os anos. O homem que analisa friamente e termina por reconhecer que não pode crer nem descrer, pois desconhece.”
Era ainda adolescente quando escreveu essa prosa-poesia.
Na poesia se entregava e filosofava. De amor e de sabedoria enchia sua cabeça encaracolada. Era amada pelos primos – tantos e tantos- de seus tios e tias que somavam dezessete e cada um deles teve seus rebentos. Os mais próximos de Tio Horácio. Pai de treze com tia Chiquinha, que era enorme de gorda e de bondade. Nas noites frias, enquanto corríamos as crianças atrás dos balões, com violão e cavaquinho na sala cantavam e dançavam:
“Eu aqui cortando jaca, meu marido pra morrê
Antes que o marido morra, do que a jaca se perdê.”
Meu avô tocava piano de ouvido e contava histórias de escravos e índios, de honra e montaria, de nobreza de palavra, de horário, de respeito, de verdade.
Minha avó tocava piano clássico, valsa e minueto. Dançávamos.
Minha mãe declamava. Sua voz era forte e clara. Nos fazia rir e chorar. Nos fazia pensar e desejar.
Era professora de declamação.
Quando eu nasci ela me colocava no berço ao seu lado para dar aulas.
Aprendi a declamar antes de ler e escrever. Ela se orgulhava da caçula que sabia interpretar; “o moleque Bacurau”, “ o Crime de Hoje”.
Eram poesias sobre crianças pobres e sofridas. Alegres e brincalhonas.
Minha mãe foi professora também. Na Escola Normal conheceu meu pai. Os dois eram os primeiros da classe. Eram jovens e belos. Ele se enamorou por ela. Ela aceitou esse amor e disse:
“Sim” – certamente seria feliz com tanta paixão. Meu pai dormia na porta da igreja, na estação de trem, em qualquer lugar, para vê-la por alguns minutos na fazenda Sabiaúna.
“Sabiaúna, retiro da saudade
Estás longe retiro soledade
E te tenho tão perto de minh’alma
O teu céu, tuas frondes, tua calma.”
Minha mãe era poetisa. Escreveu um livro lindo, que nunca publicou.
Raramente declamava suas próprias poesias. Gostava de Olavo Bilac,
Cassiano Ricardo e a poetisa cega de nascença que teve de cumprir a aspérrima sentença de jamais ver o céu de nosso Brasil.
Minha mãe se separou de meu pai e fomos morar numa casa grande.
Ela tinha vestidos rodados e sorria nas fotos. Tinha um carro Ford e os homens gritavam para ela na rua que fosse para a cozinha, dona Maria. Ela não se importava. Era raro mulher guiando naquela época.
Eram poucas.
Ela foi para a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da rua Maria Antônia. Ás vezes me levava junto para a aula, se não tinha com quem eu ficar. Orgulhava-se de ter sido a primeira aluna a passar sem oral em Estatística, cadeira do professor Severo, que há sete anos reprovava turmas e turmas.
Nós a víamos estudar. Eu e minha irmã mais velha. Estudávamos também. Havia prazer e alegria em estudar e aprender.
Eu gostava de carinho. Queria sua atenção. Então minha mãe, depois de puxar cada um dos meus dedinhos do pé me fazia sentar ao seu lado e ler para ela os livros de Antropologia que mudaram meu pensar.
Com nove anos comecei a ler tudo que havia em nossa biblioteca.
Principalmente os livros de Eça de Queiroz, que meu pai proibira.
Eu a amava muito e muito.
Quando podia acordava e corria para sua cama a ouvir a história de como a cegonha me trouxera embrulhada em uma fraldinha e com o pico batera na janela da maternidade. Mas meu braço se quebrara ao entrar, ela dizia. Talvez me tornasse deficiente. O médico já encomendara os aparelhos especiais dos Estados Unidos. Ele não sabia que minha mãe tinha fé. Orou para Jesus de Nazaré, para o coração de Jesus e, milagre, no dia em que tiraram as ataduras para colocar o aparelho importado, a mão se abriu e mexeu. Ela se comoveu.
Mãe, eu a fiz se comover tanto e peço perdão.
Com quatorze anos casando e você chorando.
Bebendo e chegando de madrugada – o seu filho homem, como você me dizia, e você me esperava rezando. Era acabar de rezar e eu entrar.
Desastres, prisões, amores, desamores, em tudo me acompanhou e deu apoio. Confiança em mim.
Sua morte está chegando e as memórias vêm em roldões.
O dia em que pegou minha mão na copa de casa e na folha branca de papel me ensinou a desenhar meu nome – o tremzinho que sobe, desce, faz curva, linha reta.
Mãe, você me ensinou a falar, a ler, a escrever. Você me ensinou a pensar, a declamar, a amar e também a questionar. Filosofando na sala e até a detestando, porque a amava também a odiava. Descobria aos onze anos os opostos.
Você era forte e segura. Sentia seu comando e queria ser livre.
Casei e me separei. Minha filha redondinha eu sempre reclamava que você de mim a roubara.
Naquela noite cansada, a menininha chorando, depois de meses sem deixar que você a tocasse, não pude mais e pedi:
“Mamãe segura ela para mim.”
Você passou a noite toda com ela em seu colo:
”Massageia, massageia a minha barriguinha.”
Ela adormeceu e eu também.
Depois me deram carta de alforria. Era livre. Fosse estudar, viver, namorar, trabalhar, viajar, correr mundo. Cuidavam de tudo por mim.
Assim foi. Sempre a saudade corria junto comigo. Eram abraços e beijos choros de despedidas e de reencontros.
Você me vinha buscar e encontrar eu voltava a procurar seu abraço, seu carinho e sua aprovação.
Cartas maravilhosas. Poucas, raras, mas certeiras.
Como flechas mensageiras sabia onde eu estava e me mostrava de novo a verdadeira estrada.
Acolheu meus amados, meus cães e minhas vidas.
Acolhia todos com ternura, pobres e ricos, deu esmolas, caridade, colocou tanta gente em escola, que como educadora sempre acreditou na Educação.
Realmente me educou.
De valores e beleza.
Mãe eu a agradeço por ser mãe e ser mulher.
Por ser pioneira, sem medo, teve vida livre, seu pensamento vasto e sem discutir ouvia e compreendia mesmo aqueles que não a conseguiam ver, ouvir ou compreender.
E hoje, mãe adorada, que vejo sua carne machucada pelos anos e pelos danos da cama, queria liberta-la e senti solta como o vento, forte como a vida, penetrando o absoluto, chegando ao céu e sendo recebida com as portas escancaradas de par em par. Para ser feliz e não sofrer mais. Para poder brincar com os anjos e as santas e sorrir ao me ver passar, pois veria em cada passo o seu próprio caminhar.
Obrigada pela vida, minha mãe adorada.
Obrigada minha amada.
Saudades.
Memórias boas e más. Memórias de amor e de dor. Memórias de rir e chorar.
Esteja em paz.
Reino da luz.
Amor é você e por amor cercada, continue sua jornada.
E quando volto a casa, corro ao seu quarto e sinto que ainda respira.
Frágil como um bebê. Respira.
Todos aguardam sua expiração final.
E embora eu tenha de preparar meu coração e os papéis ainda fico agradecendo por você me deixar aos poucos e me permitir pensar, lembrar, pedir perdão e perdoar, terminando um ciclo vida com glamour e poesia, com a força de vontade e grande capacidade de superar dificuldades que só você mesmo tinha.
Até breve.
Que saudades. Sua voz, sua amizade.
Minha Mãe, Branca.
Eu amo você.
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