Foto de Regina Martins
 

Ano Buda 2572

Quando a velha ameixeira desabrocha, o mundo inteiro desabrocha.
Quando o mundo desabrocha a primavera chega.
As cinco pétalas desabrocham como uma só flor – três, quatro, cinco, cem, mil, incontáveis flores desabrocham.
Todas essas flores crescem em um, dois, incontáveis galhos da velha ameixeira.
Uma flor udumbara e uma flor de lótus azul também desabrocham no mesmo galho.
Todas essas flores constituem as graças da antiga ameixeira.
Tal ameixeira antiga cobre os mundos humanos e celestiais. Esses mundos surgem da velha ameixeira. Centenas de milhares de flores são as flores dos seres humanos e celestiais. Milhões de flores são as flores dos Budas e Ancestrais do Darma. Quando essa espécie de ameixeira desabrocha, todas e todos os Budas surgem neste mundo e Bodidarma se manifesta.

(Shobogenzo Baige – Mestre Eihei Dogen)

 

Que ameixeira antiga é essa? O universo inteiro contido em uma pétala suave, delicada, branca, macia, perfumada. Cada pétala um universo completo. Um novo ano se anuncia. Renovação da vida. O ano novo era marcado pelo despertar da Primavera depois das neves de inverno no Hemisfério Norte. Mantemos a tradição, embora estejamos aqui em meio ao verão, onde cada raio de sol é o desabrochar da vida em sua plenitude de transformação continua.

Rituais e datas são meios expedientes para nos lembrar que cada instante é sagrado e jamais se repete. Como vivemos nossas vidas? Agradecemos cada experiência ou reclamamos incessantemente? O que fazemos em relação ao que nos indigna? Podemos transformar a raiva em ação amorosa, podemos compreender e agir com ternura, podemos nos tornar suaves e fortes, sem medo e sem obstáculos, percebendo em cada dificuldade um portal de entrada para essa pequena e sutil mudança que pode mudar toda a vida no planeta – a Compaixão.

Se desvendarmos nosso olhar sagrado que protege, guarda e mantem o Darma Correto poderemos sorrir o sorriso de Buda e reconhecer a nossa íntima irmandade com todos e todas as Ancestrais do Darma.

A ameixeira desabrochando na neve é a manifestação da flor udumbara, escreve Mestre Dogen:

“Temos a oportunidade de ver o Correto Darma em nossa vida diária, mas muitas vezes perdemos a oportunidade de sorrir e mostrar nossa compreensão”.

Na primeira transmissão histórica, Xaquiamuni Buda invés de falar para uma grande assembléia manteve-se silencioso. Levantou a flor udumbara, piscou os olhos e sorriu. A grande maioria nada entendeu, mas Makakasho, seu discípulo, olhou para o Mestre e sorriu de volta. Então Buda disse:

Eu possuo o Olho Tesouro do Correto Darma e a Maravilhosa Mente de Nirvana (Shobogenzo Nehan Myoshin) e agora o transmito a você, Makakasho.”

O desabrochar da velha ameixeira, o renascer da vida em cada pequenina flor, é a transmissão do Darma. É a Primavera. É o raio de sol de verão refletindo as folhas verdes como jóias preciosas. É o novo ano. Momento de transformação, época de transmissão.

Que possamos sorrir e compreender tanto o silêncio, quanto a palavra.

Que possamos manifestar em nosso falar, agir e pensar a Verdade Perfeita que incansavelmente, explicitamente nos mostra o Caminho Iluminado.

Ano Buda de 2572 pode se tornar a flor udumbara, a flor de lótus da Lei Maravilhosa, a mente de tranqüilidade sábia, o Correto Darma se manifestando. Depende de cada um de nós.

Que possamos sentir a suave fragrância das delicadas pétalas em nossos gestos, pensamentos, palavras e nos renovemos através da ternura sábia, da compaixão infinita, da sabedoria suprema, abrindo nossas mentes e corações para o encontro, o compartilhamento, a capacidade de ouvir e falar a partir da grande intimidade com a essência da vida.