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Agradecimento, 2005 e o Fórum Social Mundial (Brasil, 25 a 31 de janeiro)
A palavra Paz. A palavra amor. A palavra-ação
Estivemos ali. Em meio ao calor de Porto, Alegre Verão, o mais ao sul, surpreendentemente o mais quente do Brasil (não estaríamos no Piauí, no Amapá, em Natal? Na Índia? Na Ásia? Na África?).
Cada momento é único.
Único para encontrarmos o espírito necessário do deslumbramento. Nos formando, nos transformando, tirando orelhas de Chacal e colocando orelhas de Girafa, pra podermos escutar as necessidades da raiva, da ganância, da ignorância, as carências e os afetos de outros, nós mesmos. Para descobrirmos nossa fala não-violenta. Quando olhamos além de nossos olhos sem defeito, quando usamos também olhos de catarata, junto a milhares de outros olhos, pode ser que neste mesmo momento único também sejamos um corpo com milhares de braços. Sorte nossa (antes de irmos ao Fórum, ganhei um real na Loteria, Sensei!) sendo assim!
Escutamos, com David Adams da UNESCO, não a celebração do fim de um Império que não existe, mas a necessidade de construção de uma cultura de paz. Em tempo. Em espaço. Malu aplaudia conosco.
Houve um momento em que fiquei em meio à multidão, me perdi de tudo e de todos. Era o final da caminhada de abertura, onde as mais diversas bandeiras de movimentos sociais se encontravam (cada passo, único, nos trazia para mais perto ou longe de um ou outro grupo). Carregamos uma bandeira arco-íris, uma bandeira verde-amarela, uma bandeira de mulheres, uma bandeira pela terra, uma bandeira pelo mundo. Para que todos se manifestem. Para que o todo se manifeste.
Já era noite. Alguém no palco do Anfiteatro Pôr-do-Sol nos convocou a acender nossas luzes e que ali fizéssemos um minuto de silêncio. Por aqueles que sofrem? Pelas vítimas do Tsunami? Eu só carregava incenso e estava só, perdida até que a multidão também se tornasse parte em mim. E isto aconteceu quando pedi uma luz pra acender brasa perfumada e rescendente, fragrante. Pois naquele momento uma amiga me encontrou. Normélia, colona Italiana, professora de literatura francesa. Estava com o namorado Haitiano. Ela me disse que havia perdido a mãe dias antes. Ofereci incenso. Pedi algo que nem sei o que foi a Kannon, algo que estava e restou naquela morte, naquele encontro. O céu estava estrelado. Conversamos um pouco. Fui embora.
Guardei as palavras da amiga: aquele fórum era o mais místico de todos, para ela, que estivera no primeiro...o mais além do absolutamente racional, um fórum em que tudo parecia estar acontecendo em novos planos de consciência. E com os mais místicos, vamos agora nos lembrar de uma nuvem-pássaro-anjo que se formou no céu de um entardecer em que me encontrei com Paulo, um líder espiritualista do grupo Interreligioso de São Paulo, e com Elias, reverendo presbiteriano; depois de uma palestra dupla...era uma tarde se preparando para o som de tambores xamânicos, uma tarde que aconteceu em meio ao maravilhoso mahamantra entoado por hare-krishnas de todo o Brasil, uma tarde em que encontrávamos freiras católicas por todos os lados. Um entardecer que se seguiu a uma tensão interna muito grande (Você melhorou, Martha?). Um momento que me fez lembrar o arco-íris circular do Fórum de 2003, o arco-íris que se manifestou formando um círculo no céu, acima do globo de plástico pintado de azul. Nossa terra, nossa casa. Em 2005, o momento em que pegava no colo um bebê e via em seus olhos compreensão profunda.
Ela perdera a mãe. O namorado viera visitá-la. O tempo passa rapidamente. Nina já cresceu. E onde estamos agora? No ônibus de ida, cheio de jovens animados e cheios de idéias? No ônibus ou no avião. De ida ou de volta.
A mãe. A filha. A neta. Fábia e Rafaela foram para a casa da amiga Janja, Fábia ficou um pouco com a gente, no apartamento da Dona Maria Luíza, onde a Zena nos recebeu com atenção. Disse que tinha gostado muito de mim. É bom ser querida.
Os jovens (alguns tão jovens) em busca de... Ali, neo-hippies, tribos múltiplas, xamãs, índios, círculos interreligiosos compartilhando (comungar seria por demais cristão?) o movimento da vida, as experiências de cada um, os círculos possíveis. O interser. Nos fixamos no campo das espiritualidades, da ética, da fé. Do que é totalmente universal e absolutamente particular. Passeamos brevemente pelo acampamento da Juventude, pelos outros espaços. Vimos o maior skatista do mundo! Não vimos as palestras hors-concours do presidente Chávez, do presidente Lula, de José Saramago. Eram filas imensas! Mas tivemos notícias.
Fizemos encontros. Sensei queria experimentar os círculos, a proposta de Eve Marko, a iluminação do círculo (Eu e todos os seres...). Então em quase todas as palestras fizemos círculos em que cada um se apresentava, propunha, se colocava (que o coração se manifestasse). Como era às vezes difícil deixar algo de mais verdadeiro falar! Para que a sabedoria do círculo se manifestasse, cada um deveria ser o que estaria sendo dito, falar do coração. E como é difícil deixar-se falar. Para mim, especialmente, que me revolvia em minha própria limitação. A ciência é o ópio do povo.
(Dizem que o maior orador Grego era gago. Ia para a beira-mar e enchia a boca de pedrinhas para aprender a falar. E se tornou o maior orador. O ego desaparece no humilde trabalho paciente do silêncio? Até para que se possa falar. Ainda não. Já!).
E os intervalos? As pessoas vinham e conversavam com Coen Sensei entre uma tenda e outra, entre um círculo e outro. Muita gente queria foto, autógrafo etc. Vendemos quase 50 Viva Zen!.
Também visitamos Viazen, onde Moryama Roshi nos preparou um jantar e falou da dedicação de Sensei no Japão, de sua admirável determinação. E Sensei nos levou a um tempo, uma semana solitária com um pouco de recheio de pão, comida aos poucos, estar só em um templo no Japão. O monte Fuji.
Não, o círculo não é redondo. E as interseccões são múltiplas. Que devir possível para tanto movimento?
Para tentar responder, convoco Leonardo Boff, no acaso de uma tenda aberta dizendo (relato algo impreciso no amálgama da memória auditiva): a cada movimento social aqui representado corresponde uma carência de um grupo social, algo que nossas sociedades globais (governo, empresariado, sociedade civil) não consegue suprir.
E pensamos, a partir da fala de Leonardo: Quando nos lembraremos de incluir o Fórum Econômico? O Estado? E agora lá vem Eve Marko Sensei, em seu rakusu de trapos coloridos, nos trazendo sua experiência, sua prática com população de rua: estar dentro do que mora na rua. Mudar de perspectiva sempre. Não haver mais ele e eu. Compaixão no sentido Budista? Apenas compaixão?
E ela nos diz também de uma experiência em que o bom uso do econômico seria uma solução naturalmente decorrente dos conflitos e problemas que se apresentam. No caso, moradores de rua. As necessidades originais das pessoas, daquele grupo que se pretendia que se transformasse, foram a base para a construção da comunidade dirigida por Glassman Roshi, seu marido. O objetivo do grupo, em determinado momento, seria criar o maior círculo possível para incluir TODAS as pessoas necessárias para resolver os problemas que queriam enfrentar, os problemas que se apresentavam a partir do testemunho originado da abertura que não-saber possibilita. Três princípios regem sua Ordem, a Zen-Peacemaker Order, de zen engajado:
Primeiramente, não-saber. Não se sabe nada de antemão. As necessidades surgindo no momento em que estão ali. E em segundo lugar, lembrar-se de ouvir as necessidades: Testemunho. E o terceiro, não me lembro bem, preciso consultar o site de Glassman Roshi: seria ação? Ação de quem se ocupa com orelhas de girafa. Sim: Ação benéfica. Aqui, Zazen é ATIVO.
No fórum, falou-se muito de ação não-violenta mas também de linguagem não-violenta. Que o Buda ilumine a mente, a fala, o coração. Que o Dharma ilumine a mente, a fala, o coração. Que a Sangha ilumine a mente, a fala, o coração.
Assim se criam condições para sabermos de um outro mundo possível. Sem excluir o que é rico e poderoso. Mas trabalhando pelo equilíbrio destes três pilares de organização da ordem mundial. Pelo “empoderamento” do terceiro setor.
Que palavra poderíamos levar do fórum, que proposta?
Complete a frase: Cada passo que dou em direção a...A humanidade todinha caminha em direção a...
Vamos escolher bem as palavras que usamos. Vamos passear. Vamos completar.
Post Scriptum:
(Em uma das caminhadas durante o Hoon Seshin eu chorava como chorei muito durante janeiro. E meus olhos mostraram um prisma. E quando a lágrima caiu, o prisma desapareceu. Chorei muito, de amor e de raiva, chorei muito de rancor, chorei um mundo cheio de passado, chorei cada fraqueza, cada fracasso, chorei cada tentativa . Ao aprender a respirar com todos, encontro o sofrimento de outros. Olhar em torno. Ver além de mim. Falta muito, o infinito, já aqui. Não vi a estrela da manhã. Mas ela está).
E depois do fórum, que também foi um retiro, agradeço:
Obrigada Coen Sensei, minha mestra, amiga, sinto dizer isto porque é impreciso, mas sim, amiga Sensei, obrigada. Espero contar com sua colaboração hoje também! Que os sons do mundo sejam ouvidos!
Obrigada Shozan Sensei, por ter vindo com Coen Sensei ao Brasil, obrigada a todos da Comunidade Zen-Budista, a TODOS sem exceção, a todos que fazem parte deste papel. Obrigada por este janeiro entrando em fevereiro. Que penetre a vida toda. Saudades.
Martha (qual é mesmo meu nome?)
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