| A
paz possível
Luiz Caversan
Folha de São Paulo - 06/09/2003
Eu já tinha ouvido ela falar
anos atrás, num ato multireligioso que comemorou os 80 anos
da Folha. Ela discursou sobre a paz possível, e fiquei encantado.
Mas nunca mais tive a oportunidade de absorver sua sabedoria, serena
e ao mesmo tempo alegre.
Recentemente, por conta das travessuras
do destino, cheguei muito perto dela, e pude desfrutar um pouco
mais da sua personalidade forte e envolvente, e mais uma vez serena
e descontraída.
Ela é a monja Coen, brasileira,
ex-jornalista, que se converteu ao zen budismo, foi para o Japão,
onde se dedicou anos ao aprendizado da meditação e
das palavras do Buda.
De volta ao país, dirigiu o
principal templo budista japonês de São Paulo e, hoje,
dedica-se à comunidade Zendo, também zen budista,
instalada no bairro de Pacaembu.
Sou um neófito nas coisas da
alma; o pragmatismo e o ceticismo obstaculizaram minhas muitas tentativas
de crescer um pouco mais nesse aspecto.
De qualquer maneira, o budismo sempre
me chamou a atenção. Poucos dogmas, muita atenção
ao mundo que nos cerca. Poucas proibições, muito estímulo
ao autoconhecimento, à integração com a natureza
e os demais seres do planeta. E, principalmente, o pacifismo acima
de tudo.
Ouvindo uma palestra da monja Coen,
na semana passada, esses ensinamentos me pareceram ainda mais pertinentes.
Talvez pela maneira como ela se comunica: apesar da cabeça
raspada e das roupas rituais, é "gente como a gente",
ri, faz brincadeiras, exerce um carisma peculiar ao exercitar a
arte de atrair as pessoas em direção àquilo
em que acredita. Não impõe nada; sugere e, com isso,
acaba convencendo.
Convencendo de que, por exemplo, todos
nós podemos fazer alguma coisa pela paz, contra a violência
e a deterioração das relações sociais.
Cada um em seu ofício, cada um com a força de sua
vontade, cada um com os instrumentos de que dispõe, sejam
eles apenas a vontade de dizer não à brutalidade.
Como disse, sou iniciante nessa área,
mas pelo que entendi o zen budismo e suas meditações
servem perfeitamente para fortalecer a mente com esse propósito.
O que torna essa doutrina e seus adeptos
merecedores de admiração e respeito.
Senti a simples existência da
monja Coen na minha cidade como uma benção, um contraponto
muito feliz à iniqüidade que enfrentamos cotidianamente.
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